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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Desculpo-te... mas não sejas feliz sem mim.

Um pedido de desculpas? Claro que sim. Um pedido de desculpas devem-me todos aqueles que amei – ou ainda amo – e não me amaram - ou amam a mim… mas depois, de que servia: “desculpa lá, mas não te amo” , não servia de muito, não é? Deveriam pedir-me desculpa por eu pensar neles, por chorar por eles, por sentir saudades deles, mas de nada me serviria que pedissem. Por isso não me devem nada. Deveriam pedir-me desculpa por se instalarem na minha vida, fazerem-me perder tempo, invadirem-me as noites de pesadelos e os dias de solidão e depois não aparecerem, nem um telefonema dão. “ Desculpa lá, mas não penso em ti”. De que serve isso? De que serve sermos os únicos a quem a natureza ludibriou obrigando-nos a pensar em quem não pensa em nós? Só serve para que desejemos ardentemente fazer parte dos pensamentos daqueles que fazem parte dos nossos. É que nem é preciso mais nada, só isso, mas não; tínhamos logo de ser nós os tramados, aqueles que por não vigiarmos as portadas deixámos que se instalassem na nossa mente aqueles que não nos deixaram entrar a nós na deles; ou, pior ainda, deixar-nos entrar até deixaram, mas na primeira oportunidade despejaram-nos como se não pagássemos a renda. E isso é indesculpável. Mas de que serve um pedido de desculpas: “ desculpa lá, mas entrei-te por aí dentro sem te pedir  e agora não me quero ir embora, mas não te vou deixar entrar a ti, está bem?” “ não faz mal, sê lá feliz.” Mas no fundo não queremos. Vê-lo rir, estar alegre, viver a vida e nós ali a um canto a chorar baba e ranho pelo ser amado que não nos ama, nem pensa em nós. Como poderíamos querer que esse ser fosse feliz? O que nós queremos é que ele sinta o peso da nossa falta como nós sentimos a dele, que chore e sofra todos os horrores que nós sofremos, que se sinta invadido de noite e de dia, que haja sempre uma incompletude nos seus dias como há nos nossos… “desculpa lá isso, não mandamos nos sentimentos” “ claro que não, vai-te lá embora e sê feliz” gostaríamos de poder dizê-lo, até temos boas intenções e tudo e falamos com convicção, mas quando não volta, não vem mais, não telefona e vive feliz sem nós, eh, pá! Isso dói como o caraças.
Maria João Varela 


quarta-feira, 16 de abril de 2014

Lambe botas ou chinelos

Ar pimpão, pequena corcunda devida ao esforço de anos e anos de vénias chega apressado quase fazendo saltar as banhas de umas calças de terylene;  é sempre, há mais de 40 anos,  o primeiro a fazer rodar a chave na fechadura para quando o doutor chegar já o encontrar no seu cubículo a que orgulhosamente chama escritório. Não se lhe conhece outros interesses se não viver de língua esticada, húmida e sempre a postos para lamber as botas ao patrão; e mesmo quando este traz sapatos lambe-os de igual modo que lambedor que se preze não discrimina calçado.
 Comprou mesmo umas joelheiras porque com o passar da idade, ajoelhar e lamber botas tornou-se doloroso para as desgraçadas rótulas que de tanto roçarem o asfalto já levam umas contusões que não são de desprezar e, então, quando vê o “dono” ao longe, tira-as disfarçadamente do bolso e protege-se com elas. Já a língua não tem tanta sorte e, de tanto lamber, porquanto não haja para ela resguardo, começam-lhe a aparecer umas fístulas. Tem futuro. Este espécime muito apreciado lambe à esquerda e à direita, segundas, terças e sextas, não se cansa de lamber e mesmo ao fim de semana, extremoso e cumpridor sem dar sossego à língua, ignorando os lamentos e uivos de dor dá, se a isso for chamado, lambidelas demoradas nas botas de algum superior.
Passou-lhe pela ideia ganhar uns trocos a mais e abriu um curso para ensinar os truques e manhas que os anos de serviço que leva de lambedor bem lhe atestam a valência. Começaram aos jorros as candidaturas e após poucas semanas pululavam já os acessórios, organizados num kit, com que se faz acompanhar um verdadeiro lambe botas   : as famosas joelheiras – de várias cores que também há muitas mulheres a fazer o curso – uma escovinha de tirar a caspa do casaco dos superiores, um dicionário de bolso com milhares de bajulações para cada estação, um repressor de opinião própria, um artefacto interessante que solta um bip de cada vez que o lambedor se lembra de opinar; lambedor profissional não tem opinião, papagueia a do patrão…

O sucesso foi tal que mais do que o francês, o inglês, o alemão ou o mandarim tornou-se desígnio nacional ser um bom lambedor. Os lambedores são já tantos que em pouco tempo houve a necessidade de hierarquizar o curso havendo lambedores de chinelos, pantufas, sapatos de camurça ou pele verdadeira e finalizando então nas botas, com vários níveis  também de modo que quem chegue  ao topo – embora com a língua toda lixada, as rótulas esgaçadas e a corcunda proeminente – é certo e direitinho ter o seu futuro assegurado.

Maria João Varela



sexta-feira, 11 de abril de 2014

Histórias da fome

Olhou para ambos, dormiam agora aconchegados pela sopa quente que tinha conseguido pôr-lhes na mesa. Bernardo de 5 anos ainda perguntara : “ E tu por que não comes mãe?” “ A mãe comeu antes de chegar a casa, não tem fome…” mas o estômago doía-lhe, quase tanto quanto a alma, impedia-se, no entanto, de dar parte de fraca com medo que os filhos pressentissem como se sentia. João, dormia também com os caracóis louros espalhados no travesseiro, a pele rosada dos seus 12 anos enregelava,  Joana aproximou-se e cobriu o pequeno braço que se encontrava destapado e que arrefecia devido à noite gélida e à falta de aquecimento. Tinha fome, durante todo o dia só tinha comido um caldo verde que a colega de escritório lhe tinha pago quase sem ela dar por isso para que não se sentisse mal com o gesto “Depois pagas tu” – dissera-lhe a sorrir, mas Joana tinha percebido a compaixão no seu olhar.
Quando a respiração dos seus dois anjinhos se notava já mais profunda colocou as mãos  entre o rosto e chorou, chorou… chorou como ainda não tinha tido coragem de chorar, como se o choro, visto assim sob a luz baça do candeeiro  tornasse real o sofrimento, como se testemunhasse a crueza da sua situação e se consubstanciasse por fim. Hoje, no trabalho, algumas vezes se sentiu quase a desmaiar, o patrão tinha notado e tinha dito que se assim continuasse tinha de a despedir: eram as faltas de atenção, era a produção baixa, era a antipatia; ou mudava rapidamente ou iria para o olho da rua, dissera-lhe.
 Levantou-se. Decidiu-se, por fim… Abriu o computador e começou a escrever um parágrafo: «Boa noite. Encontro-me numa situação muito difícil. Sou empregada de escritório, divorciada, tenho dois filhos menores. Para fazer face a todas as despesas (de água, luz, habitação) resta-me muito pouco para a alimentação. Gostaria de saber quais as condições necessárias para receber ajuda alimentar. Estamos a passar fome e precisamos da vossa colaboração.» 
Enquanto escrevia as lágrimas caiam molhando o teclado. Lembrava-se que há um ano atrás seria impossível prever tal desfecho. O marido tinha ficado desempregado e, sob o peso da responsabilidade tinha preferido livrar-se deles e pedido o divórcio deixando-os com a prestação da casa e do carro – que entretanto tinha entregue – sem nunca mais lhe ter dado a mais pequena ajuda. A mãe ajudou enquanto pôde, mas também ela, doente terminal tinha gasto todas as economias nos tratamentos até que, quando os deixou, ainda lhe dissera: “ Pede ajuda, filha. Não tenhas vergonha, essa, que a tenham aqueles que se consolam com o que nos roubaram…” Morrera amargurada ao ver a situação da filha e dos netos, Joana desconfiava mesmo que o cancro de uma progressão fulminante tinha sido causado por toda aquela situação, ou quem sabe para a livrar de tanto sofrimento?
Fechava já a tampa do computador quando viu que tinha um email, correu a abrir. Era a resposta! Nem queria acreditar, tão rápido, tão solícito! Podia ir de manhã buscar o pequeno almoço das crianças, depois se veria.
Deitou-se e a fome, agora, esbatia-se um pouco na esperança, a esperança de um novo dia em que finalmente seguindo o conselho da mãe deixara de ter vergonha e iria, como tantos antes dela tinham ido, pedir uma ajuda que noutros tempos achara ser para quem não pode ou não quer trabalhar… Mas ela trabalhava. Enxugou uma vez mais as lágrimas que corriam agora umas atrás das outras, perdido o medo das lágrimas e a vergonha da fome.
De manhã, bem cedo, antes das crianças acordarem já se encontrava na fila para ir buscar o leite e o pão prometidos na véspera através de um email e viu, olhou e não quis acreditar: lá estava a sua vizinha do 5º andar direito, a filha do Sr. António, o enfermeiro do centro de saúde, a dona da sapataria; todos conhecidos seus, que há pouco tempo atrás tomavam o pequeno almoço na mesma pastelaria – cujo dono na falta de clientes fechara e, também se encontrava na fila à espera de caridade… “ Não se envergonhem que nós não somos pobres, fomos foi roubados”…

Maria João Varela



sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A conquista do ponto "G"

Ao homem foi dado desbravar continentes e vencer tempestades conquistando impérios ao dominar os oceanos, passou o cabo das tormentas para chegar a terra firme;  matou, esventrou e foi dono e senhor dos impérios conquistados a golpe de afiadas espadas; a mulher conquistou o ponto G e foi essa a sua maior conquista. Claro que ao ser conhecedora de que o criador não a tinha castrado, como acreditava Freud, que não era desmerecedora dos prazeres carnais e que não era por isso mesmo responsável pela queda e expulsão do paraíso, imbuída dessa confiança partiu para outras conquistas… ora o homem não gostou. Para além das conquistas que lhe eram asseguradas bastando desembainhar a espada, teria agora de conquistar o cume das conquistas femininas pois esta tinha ido à lua e já não se contentava com algum macho incapaz de lhe aflorar a bandeira.
Pode parecer redutora a teoria da conquista feminina ser o dito ponto “G” que tantos detratores se negam a aceitar, mas não: é que saber-se digna do maior prazer à face da terra - concupiscente é certo -  levou a mulher a acreditar ser digna de todas as outras coisas também; senão por que razão haveria o criador de a prendar com um tal éden não fora a intenção de lhe suavizar o caminho rumo a conquistas mais modestas, mas mais duras? Não é à toa que em todas as sociedades onde a revolução sexual não entrou as mulheres se sintam indignas de conquistar outros terrenos pois sentindo-se menos capazes que o homem nesse âmbito, sentem-no nos outros também, nem é tampouco inócuo o facto dessas mesmas sociedades lhes negarem tal direito com casamentos arranjados, violações, excisões e outras barbaridades. Não se minimize pois a conquista o ponto “G” pois enquanto o homem andava em sangrentas batalhas a mulher, sabe-se lá por que meios, foi conquistando e conhecendo o seu corpo por tantos séculos conspurcado e defraudado acusado de ser o templo do pecado, o homem fazia por isso pois tremia de terror que a mulher ao se conquistar a si mesma, ao saber que não  veio a existir só para  parir com dor como tão biblicamente lhe apregoavam as escrituras, fosse conquistando os terrenos que eram seus pela força.
A mulher veio a conquistar, não pela força, nem pela espada, mas pela inteligência e confiança que lhe era dada pela ida à lua onde deixou a bandeira e onde só um homem verdadeiramente corajoso se atreveria na travessia, que é feita a dois, mas que no final premeia também quem se arriscou. Ganharam os dois nessa conquista feminina: a mulher porque se soube capaz de outras paradas, o homem porque soube que a mulher não lhe quer roubar nada, apenas tão e só o que é seu por direito, ou seja, tudo…






Maria João Varela

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Maneirismos

Víamo-la chegar e acomodar-se no seu canto, o seu canto há mais de trinta anos. Pelo canto do olho apreciávamos os mesmos maneirismos, o mesmo tom afetado de voz, agora um pouco mais rouca, é certo, mas reconhecíamos-lhe todas as tonalidades; continuava um génio, em decadência, mas um génio. As mãos displásicas e o queixo caído – não de espanto, mas de nascença – seguravam um eterno cigarro aceso que umas vezes fumava outras não, reconhecíamos-lhe o encanto na decadência. Era certo que o vestido encarnado aos quadrados pretos e brancos não lhe assentava como outrora, nas noites a fio que passava a defender ideias progressistas e ideais impossíveis de concretizar, exceto na sua mente prodigiosa de jornalista, mas dava-lhe um ar de inconformismo acentuado pela leveza com que declinava a oferta do garçon quando já lhe adivinhava os desejos: “ Uma Margarita, senhora?” Odiava ser previsível por isso logo se apressava em pedir outra coisa que rapidamente lhe passasse na ideia. Adorava a bajulação, sorria disfarçando perceber o cheiro a  falso quando a cumprimentavam os cavalheiros de ego destruído nos artigos cáusticos feministas das suas crónicas semanais; eram preferíveis, contudo, aos cochichos das senhoras bem casadas… claro que ela nunca casou, dispensava atilhos desses e ia-se aconchegando como podia nunca lhe faltando macho – algum corajoso – principalmente nos frios invernos parisienses.
Era um pouco triste, vê-la agora, tantas vezes a falar sozinha, ou quem sabe para algum fã invisível mais persistente, enquanto se via o ar descuidado com que tinha calçado as meias de vidro onde dantes não se lhes vislumbrava um vinco. « Merrrci, mon chérrrri», vincava os “r”(s) mais que o necessário para vincar uma personalidade única onde uns cabelos negros e curtos marcavam a rebeldia de uma juventude boémia e ativista e quando se levantava cansada do seu canto onde tinha deixado a frescura perdida caminhava encurvada pelos anos de luta, mas não perdia os maneirismos com os quais segurava o cigarro, sempre aceso para lembrar que a alma, essa não se curvaria nunca…

Maria João Varela