domingo, 31 de março de 2013

Nadar contra a maré

Inaugurei há pouco tempo uma nova forma de comunicar as minhas ideias e passou por expor alguns episódios da minha vida; não que eu pense que um blog ou o  facebook é o lugar ideal para mostrarmos a nossa vida privada- sou reservada de mais para isso- mas porque tenho um propósito e penso que testemunhos vividos exemplificam melhor aquilo que quero transmitir.
Não tive uma vida de facilidades, mas também nunca dei muito valor ao que nos cai no prato sem fazermos nada por isso, no entanto, devo acrescentar que aquilo a que via muitas das pessoas que me rodeavam dar valor, para mim não fazia sentido nenhum; chorei muitas vezes por me sentir sozinha: lembro-me de chorar numa casa de banho pública: "eu não sou deste planeta" pensava e apetecia-me desaparecer... nadei muito contra a maré. Chamaram-me maluca por fazer reciclagem quando as pessoas ainda nem sabiam o que era o plástico, por fazer jogging pelo bosque adentro numa aldeia cujos moradores, curiosos e intrigados, se questionavam que raio andava a fazer àquela hora quando todos dormiam; por questionar crenças, credos, tradições, enfim, procurar um caminho que fosse meu e não um que me quisessem impor: eu lia enquanto os que me rodeavam se entretinham com os programas costumeiros; fazia meditação enquanto os outros iam para o café, fazia desporto enquanto eles passavam uma tarde de festa sentados à mesa, quantas e quantas vezes, de uma refeição para a outra. Isto tudo para dizer que para estar onde estou hoje, senti-me muitas vezes perdida, sozinha, incompreendida, orgulhosa, teimosa, um extra-terrestre, mas sobrevivi.
Vou partilhar a minha experiência- à medida que o tempo o permitir- porque a considero rica- modéstia à parte, eh, eh!- e com o intuito de motivar quem se encontre a passar dificuldades e possa encontrar alguma compreensão por parte de quem já passou pelo mesmo. Por isso, se se encontrar a nadar contra a maré, continue nadando,a algum lado há-de ir dar, já se ficar sentado...
 Escrevo também por motivos menos nobres: desanuviar o espírito pois a escrita tem o dom de o fazer.
Hoje, tenho a felicidade de poder privar com pessoas cujos valores se aproximam dos meus, valores que advêm  de uma consciencialização para o facto de-querendo ou não- estarmos todos ligados e as nossas decisões afetarem os outros e vice-versa. 
Uma coisa que aprendi é que nós, seres humanos- embora tudo à volta nos diga o contrário- precisamos de muito pouco para sermos felizes. Aquilo que somos ensinados a desejar afasta-nos cada vez mais daquilo que verdadeiramente necessitamos, por isso, cada vez mais  insatisfeitos e frustrados compramos exatamente o que nos vendem para lutar contra a frustração de não termos aquilo que necessitamos... um ciclo vicioso sem fim e que alimenta as vorazes bocarras de um sistema impiedoso e injusto.
Apesar da enorme crise que atravessa o nosso país vejo, agora, uma revolução silenciosa em curso: senhorios que cobram as rendas em serviços que os inquilinos possam prestar, empresas que trocam os seus  serviços por outros, trocas de bens
, voluntariado, dedicação a projetos sem fins lucrativos; muito mais solidariedade. Para mim, a verdadeira mudança já começou. Estarei otimista?


segunda-feira, 25 de março de 2013

Mulher


Sou bela e poderosa,
faço sombra ao sol e inveja à lua;
Rio e cubro de beijos todo o universo,
sou paz sou harmonia,
cheiro a flores silvestres e a  maresia.
Canto, danço
dou à luz e às trevas;
sou noite escura, breu de assustar,
choro, morro de ciúmes e sou pequena,
feia e frágil e só.
Não sou uma só...

Tantos seres me habitam…
Sou feita de macio veludo e áspero linho,
sou felina arranho,
mas cuido,
transporto as crias para um lugar seguro.

Sou dias quentes e mansos de verão,
sou tempestade, furacão, inverno rigoroso;
Sou um rio que serpenteia
onde podes navegar
mas cai sem aviso
em  turbulentas e perigosas cascatas.
Sou criança traquina e curiosa
teimosa.
Sou mulher...

Maria João Varela

Foto: Sou bela e poderosa, faço sombra ao sol e inveja à lua; 
Rio e cubro de beijos todo o universo sou paz e harmonia cheiro a maresia e flores silvestres;
Canto, danço e dou à luz e às trevas; sou noite escura, breu de assustar, choro, morro de ciúmes e sou pequena,  feia e frágil e só. 
Não sou uma só. Tantos seres me habitam…
Sou feita de macio veludo e áspero linho, sou felina arranho, mas cuido e transporto as crias para um lugar seguro… 
Sou dias quentes e mansos de verão, sou tempestade, furacão, inverno rigoroso; 
Sou um rio que serpenteia o vale bom para navegar, mas sem aviso cai em  turbulentas e perigosas cascatas
 Sou criança …
Quem sou?  Simplesmente mulher…


domingo, 16 de setembro de 2012

Tsunami



Gostei de ver o povo português assim unido num protesto; até os mais relutantes saíram à rua: eu não.  Não fui. Não que prefira qualquer outra tarefa mais interessante mas, simplesmente, porque me identifico completamente com as palavras de Madre Teresa de Calcutá quando diz: “ convidem-me para manifestações que digam sim à paz e eu irei, agora contra a guerra; jamais! Porque aí o ênfase é dado à guerra.
Ouvi  muitos dizerem que querem outro 25 de abril mas, a meu ver, e como já diz o ditado o rio não passa duas vezes no mesmo sítio querendo com isto dizer que jamais as condições serão idênticas e vejo muitas diferenças daquela época para esta  e dos interesses diferentes que estavam em jogo. Uma das diferenças mais relevantes diz respeito àquilo que as pessoas queriam e ao facto de saberem exatamente o que queriam, e agora, saberão? E eis-me chegada ao motivo principal porque não me juntei à população: sei perfeitamente o que as pessoas – eu incluída – não querem, mas o que querem elas? Quererão que saia o PSD para voltarem a colocar no seu lugar o PS?
Só ouço que não queremos mais desemprego, não queremos troika, não queremos passos coelho – com minúscula e tudo – não queremos muita coisa, mas o que queremos no fim de contas?
Diz-se que a necessidade aguça o engenho e tenho que reconhecer que aqui o povo português foi de uma criatividade sem par, os cartazes, empunhados por furiosas mãos – algumas cansadas de tanto trabalho sem o justo contributo – tinham verdadeiras obras de arte indo do humor negro  ao sarcasmo  mais corrosivo como se todos nós tivéssemos já nascido para isto: fazer cartazes e empunha-los e , segundo consta, muito do que se viu foi espontâneo tendo as pessoas começado a juntar-se sem que nada fizesse prever  o impacto numérico – ainda por cima num sábado de verão como este em que noutras circunstâncias estariam todos de papo para o ar a ouvir o famoso refrão: “ Olha a bolinha de Berlim, croissant d’ovo…”  «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades» como dizia  Camões.
Confesso-me um pouco envergonhada por ver tanta gente que luta, que pede mudança, que diz “Não”, que diz “Basta” e eu aqui fiquei assim, impotente, petrificada, sem me apetecer mexer; a verdade é que não sei bem o que quero e como quero. Não sei que partido lá quero, não sei que medidas me assustam mais se estas em que claramente o país vai ao fundo dentro em breve, se outras em que tudo é suposto ficar como até aqui; eu só sei que nada sei – como Sócrates, o filósofo, porque o outro sabia e era muito…
Pois, e assim continuo sem saber se quero esquerda se direita, se Monarquia ou República, anarquia ou ditadura, se sol ou chuva, frio ou calor,  fome ou gula. Mas quero dizer “Sim” e não dizer “Não”, pois no dia em que soubermos para onde queremos ir, nesse dia, será dado o passo sem retorno e aí será um tsunami e não uma onda de gente.


sábado, 8 de setembro de 2012

viciada em livros


Dizem que os livros são como um amigo, qual amigo qual quê; um livro, ou os livros neste caso, foram a mãe, o pai, os irmãos, a família inteira… não saberia viver sem eles. Nunca escolhi nenhum, foram sempre eles que me escolheram a mim, insinuando-se com as suas sedutoras  capas de cores brilhantes. O bailado das letras agarra-me, hipnotizando-me, e já só me vejo a dizer à livreira: “ quero este!” e pronto, já está. Lá me leva ele para casa e já não mais me larga até que acabe de o desfolhar  primeiro, devagarinho , como quem tateia um mundo desconhecido, tomando conhecimento do seu cheiro único – é isso, acho que é o cheiro que resolve o dilema com que me deparo às vezes quando, indecisa, demoro a escolher – do tamanho das letras e número de páginas e não faz mal se são muitas, só não me chateiem até que acabe de o devorar.
Cresci a ler, saí cedo da escola, mas nunca me faltaram livros; comida sim, às vezes, mas livros nunca. Se as pessoas se medissem em cima das pilhas de livros que já leram em vez de descalças como normalmente, eu seria enorme, seria uma top model sem rival… às vezes penso que não fui formatada na escola e por isso dou por mim a pensar diferente, sem falsas modéstias, eu penso diferente e a culpa é deles, ou melhor dos seus autores, pessoas de todo o mundo, e eu cresci assim a ler pessoas de todo o mundo,  sem a pressão dos exames podia ler e reler vezes e vezes sem conta e refletir no que lia sem que alguém me dissesse que estava na hora de fazer um exame e deixar de pensar no assunto.
Só já na vida adulta me sujeitei aos exames que fui passando, mas já nada havia a fazer a minha mentalidade universal estava já formada, por isso sinto-me cidadã do planeta terra que eu adoro, mas não gosto de patriotismo bacoco. Quem lê e lê muito e reflete no que lê é mais tolerante porque conseguimos ver sob muitas perspetivas diferentes:  O famoso “Madame Bovary”  de Gustave Flaubert que pelos olhos de uma adúltera nos mostrava a fragilidade humana que conseguia ter  alguém que assim enganava o pobre Charles, o marido; Eça de Queirós com o seu fiel retrato da sociedade portuguesa do séc. xıx que se mantém, infelizmente, atual; Os irmãos Frochard de Arsène Blanc que li e reli vezes sem conta com uma lanterna a pilhas por debaixo do lençol -  não que me proibissem de ler, mas porque não tinha eletricidade -  e que me fez viajar por todo o mundo vendo através dos olhos perspicazes do autor que  contava como, por sua vez, as suas personagens viam o mundo, e eu sonhava, vivia uma realidade difícil mas sonhava e sabia que havia um mundo melhor do que o meu e bem maior . A imaginação soltava-se e eu estava ali sem estar. Nada, nunca, pode substituir um bom livro.
Por isso sou rica, rica não, milionária, bilionária, não trocaria todas estas experiências por nenhuma riqueza “ material” deste mundo, deveria mesmo existir uma revista como aquelas que existem para medir a riqueza material e que medisse o número de bons livros que alguém já leu e o número de horas que refletiu sobre eles, estaria entre os primeiros lugares , não tenho dúvida nenhuma.
 Ler, pensar,  “digerir” as ideias expostas e torna-las nossas e depois, só depois, deixar que a boca se abra, ou a mão escreva  o que se pensa sobre a questão porque aí sairá uma ideia novinha em folha , o conhecimento assim absorvido quando divulgado já sairá de roupagem nova  já lhe terá sido acoplado algum do conhecimento único que cada pessoa contém  criando assim conhecimento totalmente novo. É assim, a meu ver, que uma sociedade evolui e não divulgando o conhecimento tal e qual ele se encontra exposto.
imagem retirada da net

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Semente venenosa




Estamos a viver num país em que todos culpam todos e nunca ninguém se senta  e, sozinho com os seus botões, se pergunta onde foi que eu errei? Que posso fazer daqui para a frente para que tudo corra melhor? É muito fácil criticar, já assumir responsabilidades é sempre muito difícil, no entanto, é o único caminho para a mudança.
 Onde foi que errámos? Onde continuamos a errar? Que passos devemos dar para a mudança ocorrer? Estas perguntas deveriam ser respondidas por cada um de nós. Já não há paciência para criticas, acusações, sentimentos de injustiça, indignações; onde é que isto nos leva? A lado nenhum, só se consegue aumentar o desconforto pela situação, mais nada. 
Numa reportagem que li a propósito da Islândia e das mudanças que tinham feito, lembro-me que uma das coisas que mais me impressionou foi o facto de eles praticamente não se queixarem, no entanto, saíram para a rua e mudaram as coisas, porque será? Que têm eles que nós não temos?  Nós falamos muito e agimos pouco e para nós os outros são sempre os culpados e nós próprios somos uns anjos na terra. Onde estão as mães e pais desta geração? Onde estão os que educaram estes que, agora chegados  ao topo, açambarcam os restos que ainda há para açambarcar tal qual  cães vadios que revolvem os fundos dos caixotes do lixo buscando, esfaimados, o que sobrou das copiosas refeições de outrora? Eu respondo, estão por aí, estão por todo o lado, ao nosso lado, somos nós; por mais que custe, somos nós…
Sempre que educamos no sentido dos nossos filhos levarem vantagem, de serem os melhores, quando fazemos comparações: “ Já viste  as notas do filho da “C”? Tens de te esforçar para seres melhor do que ele  para a próxima; Já viste o namorado da “I” ? A família dele é dona de metade cá da terra, se ao menos tu também arranjasses um assim”; “o vizinho comprou um carro novo, deve ter custado um balúrdio, está na hora de trocarmos o nosso…”, sempre que o fazemos estamos a incentivar a mentalidade que combatemos depois, naqueles que, tendo o poder, mais não fazem do que seguir o que lhes foi ensinado. É bom que nos consciencializemos de que sempre que valorizamos alguém simplesmente por aquilo que acumulou, por aquilo que tem, pelas vantagens que alcança estamos a incentivar as novas gerações a manter esta mentalidade que nos está a afundar.
Comparações, a existir, devem ser feitas olhando para aquilo que éramos e que agora somos; ou que os nossos filhos eram e são agora, valorizar o esforço e não os resultados, valorizar atitudes e não bens acumulados, aceitar diferenças e “fraquezas” ajudando a melhorar , incutir outros valores.
Os responsáveis pela nossa situação somos todos nós, com os nossos comentários,  atitudes pouco refletidas  e quando mais depressa o aceitarmos mais depressa começaremos a mudar este país que continua o mesmo que  Eça de Queirós imortalizou. Façamos cada um  Mea culpa  e comecemos a educar os nossos filhos de forma diferente e, na próxima geração teremos um país melhor, pois ou muito me engano ou podemos  mudar de governo todos os dias e mesmo assim até ao final do século nada mudará porque a semente venenosa é deitada à terra, todos os dias, por todos e cada um de nós.




(imagem retirada da net)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Partir e chegar



Seria bom estarmos sempre de partida e sempre de chegada… nada se compara a um cenário observado pela primeira vez;  aos sons que ouvimos estranhando os graves e os agudos, os sussurros  das notas cantadas pela natureza e que, estando lá sempre, pelo menos a nós que agora chegámos, nos parecem de uma beleza que passa despercebida a quem já se habituou.

E é este “habituar” que é preciso contrariar, é este acostumar embrutecendo o que é belo que urge combater. Como os sentidos despertam quando contemplamos uma paisagem pela primeira vez!  Como os aromas nos parecem únicos e de um prazer sem começo nem fim que nos atordoa e faz a vida valer a pena!  Partamos, pois. Não importa para onde, mas partamos para podermos chegar e saborear como uma criança saboreia um fruto doce pela primeira vez.

A partida, essa, também tem o seu encanto. É quando queremos tudo abarcar pois já nos falta o que ainda temos;  temos sem ter, já não sentimos nosso o que está diante de nós e mesmo a olhar, tocar, sentir, mesmo assim não é nosso. Até o doce nos parece mais doce e a brisa mais fresca, o que era feio agora é  bonito e o aborrecido ganha novos encantos descobertos à última  hora enquanto  perguntamos porque não olhámos com mais atenção enquanto havia tempo… Agora já não há. Resta a nostalgia e a leve esperança de regressarmos um dia e vivermos o que nos faltou viver agora. Só que esse dia nunca chega; mas nós chegamos a algum lugar, aproveitemos então enquanto é tempo o raro despertar dos sentidos e nunca, mas nunca, nos deixemos “habituar”.
















(imagem retirada da net) 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Ruas da amargura




Ao ver um programa como “ruas da amargura” que passou na RTP 2 – aquela  que vai ser sacrificada porque é a única que impede que sejamos todos acéfalos – vive-se várias emoções distintas e contraditórias. Já estava para me deitar pois acordo de manhã cedo, mas não me pude impedir de continuar a ver porque fiquei presa ao drama tão humano que é o facto de ser um sem-abrigo desprezado por (quase) todos.
Passei por vários estados de espírito diferentes porque o documentário está, a meu ver, muito bem conseguido pois nem se atém a passar uma mensagem de miserabilismo nem pinta de cores agradáveis um quadro que é de uma agrura que ultrapassa a imaginação.
Numa associação livre de ideias, sem a interferência do entrevistador, os sem-abrigo contam como foram lá parar e o que mais me impressionou foi a extrema lucidez de alguns deles e a aceitação da sua quota de responsabilidade na  situação. Citando um deles: “ Eu estou aqui por minha responsabilidade, quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga, deixei-me levar pelo jogo…” Isto é um ensinamento para muitos dos que passam a vida a responsabilizar os outros por tudo o que lhes acontece na vida. Na verdade, muitos deles pareciam até mais felizes do que muitos do que achamos terem uma vida normal, mas talvez seja só o que aparenta para quem não está como eles sujeito a todas as vicissitudes de uma vida passada ao relento e longe do afeto que proporciona uma vida familiar. Que alguns se mostravam bem dispostos, é uma constatação que fui fazendo ao longo do documentário, talvez devido ao facto de o dia já ir longo – para eles – e os copitos já irem fazendo o seu efeito? É, muitos confessam ser o vício que lhes roubou a vida. Não nos apressemos, contudo, a demarcarmo-nos duma eventual queda numa situação destas não vá o “diabo” ouvir-nos e só para mostrar que tem mais força trazer-nos uma situação que não consigamos ultrapassar.
Admiro imenso o trabalho (quase) anónimo que fazem estes voluntários que, sem juízos de valor, vão trocando as seringas, distribuindo preservativos, oferecendo um prato de sopa quente ou mais uma manta, tudo objetos muito apreciados por aquelas bandas.  Aprecio fundamentalmente a forma humana com que os tratam e o respeito até pelas suas irresponsáveis atitudes como quando recusam ajuda. Assisti também estupefacta à solidariedade com que alguns deles se ajudam com o pouco que têm demonstrando que mesmo nas piores circunstâncias se pode encontrar algo que escasseia por todo o lado: o altruísmo.
Uma das conclusões que se vai tirando é que são os vícios que vão atirando muitos para a rua, cansadas as famílias de tanto lhes tentarem pôr juízo na cabeça, mas muitos outros não tiveram simplesmente uma ajuda num momento de maior desequilíbrio ou suscetibilidade e isto faz pensar, pois parece muito ténue a diferença entre ter uma vida estável ou uma vida em que se é um pária da sociedade. Vale a máxima: antes de julgares tenta compreender.


   ( imagem retirada da net)



segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O senhor fulano de tal



No nosso país com complexos de periferia, tudo se faz para chegar ao topo da hierarquia, mas longe de ser uma coisa desejável como noutros países, na minha opinião, é algo triste e sórdido…  É que, na grande maioria das vezes, sendo mulher e chegar lá – ao topo – estando cá – neste país – significa nada mais que estar na base da cadeia alimentar. Sendo homem significa que já há muito se perdeu o respeito próprio.
Sinto compaixão por quem lá está e por quem, não estando, queria estar. O senhor fulano de tal, a senhora dona a quem tiram o chapéu quando passam são uns pobres desgraçados que não sabem que o são, só quando caem em desgraça disso se apercebem; os que se vergam em vénias tais que se lhes rasgam os fundilhos enquanto lhes vai crescendo água na boca na esperança de chegarem a ser, também eles, venerados , estes sabem a sua triste condição de abutres dispostos a regalarem-se com os restos mortais dos outros. Que triste figura, uns e outros.
 Não têm amigos, nem o amor lhes bate à porta, são invejados, mas não amados, são desprezados e atraiçoados, mas depois que lhes retiram o título são simplesmente esquecidos  e aqui é que sofrem horrores porque sentem asco de si próprios.  Não souberam merecer o mais genuíno respeito, o seu próprio, que é o que mais conta pois é baseado no conhecimento daquilo que é público – o comportamento – e do que é privado – as verdadeiras intenções. Foi-se o título, foi-se o orgulho. Nunca pensaram fora do sistema e agora, sem sistema, não sabem sequer pensar.
Desconfio pois de postos de relevo e das suas comanditas no nosso Portugal, salvo raras exceções, não é bonito de se ver, é o caixote do lixo, a escumalha, os que enxovalham todos os valores que importam. Os que se querem manter íntegros, libertos, mantêm-se longe das suas perniciosas influências.
Pergunto-me frequentemente que país seria o nosso sem este sistema em que (quase) todos fazem especiais favores ou estão à espera que lhos façam. Não deixo de imaginar que tantos dos que achamos serem cidadãos de segunda, mais não são do que aqueles cujos princípios não lhes permitem que se vendam, ou por outras palavras, aqueles cuja consciência do seu valor não lhes permite venderem-se por tão pouco: um posto onde os outros lhes fazem a vénia esperando que se vão para se alimentarem dos restos.
Respondo frequentemente que sem este sistema – qual bicho a que ( quase)  todos uma vez por outra damos de comer -  seríamos um país evoluído onde chegaria ao topo quem mais contribuísse para o desenvolvimento e prosperidade,  quem menos se vendesse a interesses mesquinhos, quem sentisse orgulho de vestir a própria pele, quem procurasse a excelência e o conhecimento, quem pensasse por si próprio e não o que as massas ditam; neste país os   verdadeiramente excecionais seriam vistos como tal por todos e não só por eles próprios e pelos poucos, mas bons amigos que têm , desta forma, todos ficaríamos a ganhar.
                                                 (imagem retirada da net)

domingo, 26 de agosto de 2012

Desencontros



E se hoje eu fosse como sou? Se me deixasse conhecer em toda a minha humanidade tão frágil e trágica quanto deliciosamente única e esplendorosa? Porque insisto  em me  esconder, resisto a mostrar o que me  faz única e ao mesmo tempo  igual? Se ao menos eu soubesse que também tu tremes perante o desconhecido; se imaginasse que também tu te perdes e esvazias de sentido, talvez me deixasse ver por dentro.
Num relampejo de coragem apetece-me descobrir-me do manto pesado e negro que me cobre da ameaça do mundo. E se eu me abrisse? E se eu deixasse descobrires o tesouro tão bem guardado que possuo e que só eu conheço? Ah, mas primeiro, teria de te mostrar a casa dos terrores, dos medos inconfessáveis, dos monstros amordaçados, das léguas por percorrer; teria de dar nome ao deserto da alma e convidar-te a atravessá-lo comigo… quererias tu? Dar-te-ias ao incómodo de partilhares os horrores para descobrires o tesouro?
Foi-se a fugaz coragem, e deixo-me estar assim, envolta na névoa da desconfiança ;querendo falar, calando;  querendo mostrar, tapando ; querendo ser eu,  disfarçando.  E o tempo vai passando, esqueço-me do eu que sou e passo a ser o eu que penso que queres que eu seja. E tu? Tu fazes o mesmo e, embora nos toquemos por ínfimos instantes,  esculpimos abismos, cada dia que passa, mais  e mais escarpados, nunca nos  descobrimos nem encontramos.   

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Só por hoje



Hoje, só por hoje, vou ficar assim quieta a olhar para ti… E vou ver cada micro e nano gesto que faças.  Vou parar de olhar tudo o resto e tudo se esvairá e desagregará perante a experiência de te ter.
Hoje, só por hoje, vou inalar cada nuance do teu aroma cuja fórmula desconhecida decifrarei para com ela fazer um perfume com o teu nome.
Hoje, só por hoje, ouvirei cada sílaba que pronuncies, atenta à mínima sonoridade vinda de ti, atenta a cada palavra que digas e escreverei um livro para todos os amantes feito de sons perpétuos .
Hoje, só por hoje, vou saborear cada gota do teu sal e temperar o meu dia com a tua presença.
Hoje e para sempre vou-te sentir  em mim pois entraste no meu ser inteiro por todas as portas que  te abri.