sábado, 12 de outubro de 2013

Mulher

Sou terra fértil onde o amor nasce 
e a ternura dá lugar à ânsia de poder;
sou serena e em cujo regaço descansas
e esqueces os dias desenfreados.
Sou a cor dos teus dias,
as pétalas frágeis e viciosas de uma papoila selvagem.
Sou livre e rebelde na minha doçura,
sou montanha que resiste suave e firmemente às intempéries;
sou aquela onde te refugias
das tuas lutas vãs.
Sou mar revolto, mar assassino
para quem se atreve a surfar,
mas sou ondulação suave
para que possas navegar.
Sou aurora; prelúdio de dia,
sou noite vadia e arisca; sou mulher…


domingo, 6 de outubro de 2013

O comboio aos quadradinhos

O comboio de gente pequena lá ia seguindo a rua que desemboca na praça 8 de Maio ora de carruagens mais alinhadas, ora menos, mas seguia em frente enquanto as pessoas que se encontravam no apeadeiro, maioritariamente turistas,  chegavam e açambarcavam as ruas com os seus artefactos preferidos: mochilas, máquinas fotográficas, chinelo no pé e chapéus de abas largas; eu passava e já vinha há algum tempo a apreciar as carruagens que, de quando em vez, descarrilavam. Estas pequenas criaturas atraem-me e gosto de vê-las duas as duas, entrelaçadas as mãos por uma qualquer ordem superior que acatam sem questionar. Nem todas as ordens são acatadas com a mesma solicitude, pelo menos não por todas as crianças e as educadoras lá vão tentando metê-las nos carris enquanto lhes ajeitam os chapéus, de uma só cor, como que a indicarem ser seu dever pensarem todos igual.
Destacou-se uma menina que lá seguia mão na mão com o seu par, mas que já desde o início da rua era difícil manter na linha e era ela que fazia descarrilar o comboio de carruagens aos quadradinhos azul e rosa como os bibes; puxava o seu companheiro e fazia os cabelos da educadora eriçarem-se de irritação, mas por mais que esta lhe ralhasse, volta não volta lá voltava ela a meter o pé na argola e como ia nas carruagens da frente lá se contorcia o comboio que agora mais se assemelhava a uma lagarta vaidosa que saracoteasse  as ancas se as tivesse.
Eu diminuía a velocidade para apreciar esta gente em miniatura e deliciava-me com as suas contidas traquinices e com o talento especial das educadoras para não deixarem que o apeadeiro e todos os que lá se encontravam impedissem a passagem do comboio mais extraordinário que alguma vez foi visto.
Mas eis que a menina dá mais um puxão ao seu parceiro de viagem fazendo pela enésima vez com que a lagarta gigante aos quadradinhos meneasse os anéis e que os que seguiam atrás esbarrassem uns nos outros proporcionando-me, assim, apreciar o mais subtil e precoce indício de autoridade protagonizado por  palmo e meio de gente que farto da sua desajeitada companheira o fazer perder os carris leva o dedo à boca em sinal de silêncio e com um toque suave mas firme a puxa de volta à linha. Mais ninguém se apercebeu do gesto; só eu e a pequena que lhe virou uns olhos de cão submisso, meteu o rabo entre as pernas e acatou a ordem que até ali nenhum adulto a tinha feito acatar não voltando a fazer descarrilar a carruagem. A cena impressionou-me, mas o que mais me impressionou foi o olhar que, mais do que os gestos, sem ser ameaçador, tinha  um qualquer indício de dominância natural que não prevê desafio à autoridade e que, sendo naturalmente concedida, se impõe graciosamente.
A educadora deve ter dado graças pela tranquilidade com que se finalizou a viagem sem se aperceber do inesperado aliado que lha tinha facilitado e sem se aperceber naquele momento do esboço de líder que tinha o privilégio de poder educar.
Eu segui o meu caminho a sorrir internamente e pensando o quanto têm as crianças para nos ensinar a nós, assim nós tivéssemos na disposição de com elas aprender.

sábado, 5 de outubro de 2013

Tempestade

Chegaste assim de mansinho para me minares e nem dei por ti, tal como não dá a ponte pela corrosão que um rio, sempre corrente, lhe provoca fazendo-lhe estremecer  as estruturas . Talvez não te notasse como não nota a granítica rocha que a doce e suave água que passa lá deixará o seu rasto, porque parece inofensiva, causa estragos. Parecias estar somente de passagem, como um visitante que apenas fica pela novidade da paisagem, pela curiosidade de descobrir novas moradas e por isso mesmo quando vi que ficavas já era tarde; já me possuías o leme e comandavas a embarcação  rumo a alto mar.
Povoaste-me os sonhos, os que sonho a dormir e os que, acordada, me levam em tormentosas tempestades; pobres entidades incorpóreas e diáfanas que se agregaram a mim e em fantasias se fizeram vivas e presentes atuando como melífluas e mortais personagens  que são, à vez,  público e produtor.
Que força é essa que paralisa impossibilitando a fuga sem corrente que prenda? Que poder te conferi eu para com um gesto me condenares ao inferno ou me elevares aos céus? Temo esse poder que te dei, nem sei como nem porquê; entreguei-te a capitania e navego agora nos mares por ti traçados.
Julgava-me a salvo do furacão que se formava deixando-me enganar pela calidez com que te apresentavas, só a inocência permite tal engano pois não é  em tais climas quentes que as mais mortíferas tempestades se formam? Não é mesmo no seio dos mais perfeitos climas que os tufões se formam e num rodopio destroem tudo o que encontram?  Neguei todas as evidências e fui ficando, mais e mais tempo, nas tuas redondezas até que a velocidade dos ventos que te assombram me veio soltar as folhas de outono e me deixaram nua.
Foste-me tragando as entranhas qual hospedeiro parasita em morada alheia, alimentaste-te do meu fogo, do mel e do amor consumiste-me por dentro para me rasgares na saída… Foram-se os ventos e as ondas da tempestade, mas ficou o salgado na pele e o cheiro a maresia. E as folhas? Essas, ao desprendê-las renovaste-as deixando uma nova mulher no lugar…

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Tréguas

Enterrámos o machado de guerra e a comprová-lo está a tua camisa e a minha entrelaçados no chão de um quarto repleto de aromas de amor; os desatinos, esses, foram-se assim que pisámos o chão que nos lembra outras noites, outros encontros de vícios feitos, que rasgam as roupas e reconstroem a alma. Nesses momentos em que seduzidos, ambos, nos entregamos numa rendição absoluta, em que tu e eu nos transportamos numa onda de prazer para outros paraísos que nem terrenos são, em que tudo o que é palpável se desintegra dando vida a um outro mundo só nosso, lá estão as nossas intimidades expostas que jazem em formas retorcidas e se abraçam no chão.
Tirámos tudo, e nesse desnudar ficámos tão dignos de amor, numa crueza e soberba poderosa que nem todos os amantes conhecem por faltar a coragem de serem vistos por inteiro; aterroriza que nos vejam e sintam quando nos abandonamos: que seria se neste momento em que larguei a armadura com que me apresento, em que atiro ao chão os acessórios que me aconchegam o corpo me rejeitasses? Mas não o fazes pois também tu anseias por ser completo nessa entrega.
Aos poucos vão-se os sons que não são de amor feitos, ficam só o teu arfar e o meu, esquecem-se outros vícios e sem mais delongas cobrimos de beijos os corpos nus, rejeitadas as roupas que imitam no chão o que se passa na cama: cada peça tua e minha, atiradas assim sem jeito nem cuidado, se sentiram atraídas e se entreteceram…
Esquecem-se os prantos, turva-se a visão e o resto da paisagem, envergonhada de tanta paixão, dissemina-se por momentos e já só o que existe são sentimentos; sem corpos nem roupas; só um movimento crescente que culmina e decai…

Volta, aos poucos, tudo ao que é, voltamos a ser gente e volta o quarto ao seu lugar trazendo o mundo junto com as estantes, as gavetas, os móveis todos. E voltam os sons do mundo, os cheiros do quotidiano, apanham-se as roupas  e desenterramos o machado… 

Maria João Varela

sábado, 28 de setembro de 2013

Tédio

Chuva lá fora, cinza cá dentro. Já não aguento!
Para onde foi a luz, o brilho, o fulgor? Para onde foi o riso, o calor?
Veneno venenoso, tédio tenebroso onde o diabo se instala;
Vai de retro satanás, faíscas e coriscos traz, que é bem melhor!
Que o vento traga consenso e o que o bem-dito casamento
 me dê alento e resfolga deste nada que querer.
Dor de alma sem o ser, sofrimento sem contento
Nem inimigo a valer.

Não é nada, mas aperta.
Que os sentidos estão dormentes e nada lá fora apetece…
Arrastam-se as raízes da terra, não saem mas tentam
Só eu observo e paro. Para tudo e nada brota,
caem as folhas mortas arrastadas pelo vento,
Nem jazigo, nem morte!
Raios partam esta sorte, eu só queria viver
sempre alegre, sempre quente,
sempre de corpo presente, sem nostalgias fingidas.

Quando vens soltar-me os desejos?
Que eu temo ficar-me pelos anseios
e nem ando nem prevejo que possa querer andar,
então, sem mais nada que fazer
solto os dedos sem pensar naquilo que vai sair,
não importa, mas nem morta
quero sentir o bafio do emperro e do vazio.

Tudo vale para o disfarce:
Comer, beber, fazer, seja lá aquilo que for
 tudo o que seja ação e me  liberte do tédio  
ou deste meio viver.

Eu não nasci para isto, viva alegre ou viva triste
quero viver por inteiro! Então ponho-me  a criar
frases e versos à toa na esperança, talvez
que estes versos que lês  te deem algum consolo,
 desse fraco palpitar, desse eterno arrastar
de raízes lamacentas que procuram a saída
ou outra forma de vida, com mil cores e sabores
e sentidos  bem despertos;
frases sentidas, amizades coloridas, eternos amores…



sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Haveria casamento?

Era um daqueles dias em que o espelho estava mal disposto e por mais que ajeitasse os cabelos e desse palmadinhas no rosto para ativar os canais sanguíneos não conseguia que ele me fosse amável. Não valia a pena continuar a mirar-me, quando ele queria, tinha de sair para a rua com a imagem que ele me devolvia maldisposto…
Sentindo-me um trapo, galguei apesar de tudo os três patamares de escadas e fui-me encontrar na rua já movimentada devido ao avançar rápido das horas, onde os carros se queixavam com ruidosas buzinadelas, a chuva, acabada de sair da toca depois de meses de ausência dava um toque final ao caos pois tinha apanhado a maioria desprevenida e enquanto alguns se abrigavam tentando manter-se a seco, outros precipitavam-se aos encontrões para se conseguirem enfiar em algum autocarro, com certeza sobrelotado àquela hora da manhã. Molhei-me toda também pois embora com um guarda chuva, este era dos que se lhe entortam as varetas à mais pequena brisa; nada que não fosse de esperar, já que a própria vendedora à minha pergunta sobre a duração do mesmo me tinha respondido com um reconfortante: “ Só custa dois eulos”.
Sacudi levemente os cabelos que se grudavam à testa pingando pelos ombros e braços e contrastando com o húmido das costas que se devia à corrida até ao autocarro fazendo uma espécie de encontro entre dois climas contraditórios, deixando o desconforto vir-se juntar à má disposição com a imagem matinal que o espelho me tinha atirado. Para culminar, o nariz começou a pingar como que a reclamar pela falta de atenção para com a sua sensibilidade e com as mão ocupadíssimas pelos trastes de inverno não consegui travar a tempo um fio fino que sem esperar que eu pousasse os pertences me cai pelas narinas arfantes e me vem macular o casaco.
Atrapalhada, desconfortável, um traste humano que mais parecia um traste humano mesmo, dei de caras com a figura elegante e sorridente da minha paixoneta do momento que me olhava divertido do fundo do autocarro e me apontava um lugar para eu me sentar, mesmo ao lado dele, o qual declinei pois como é obvio mulher que se preze prefere passar por antipática e arrogante do que por ranhosa em terra de gente limpa e seca.
Saí esbaforida na paragem seguinte quando ainda faltavam duas paragens para o meu destino que palmilhei encarnada de fúria por me ter pregado o destino tal partida: há que séculos tinha desejado uma oportunidade por me aproximar daquele homem que me povoava as fantasias e ela tinha chegado no momento mais inoportuno e tudo porque culpa de um espelho que me tinha dito ser feia quando ainda não estava bem acordada para o contradizer, uma chuva que tinha teimado em cair descontroladamente para cima de um chapéu por quem nem a dona tinha tido grande esperança que deixasse alguém a seco e pela falta de um lenço que a tempo e horas me poupasse do estigma de ranhosa.

Quem sabe por culpa de tais objetos insignificantes se tenha perdido um casamento?

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

se eu soubesse

Se eu soubesse falar de cor
sem pensar o que falar,
se eu soubesse para agradar, me calar
seria fácil e mais seguro
distribuir sorrisos de papel colorido, brilhante e lustroso.

Mas não, não sei, e por ser assim tão transparente,
falar tão abertamente sendo fiel só a mim
sem querer confundem-me os traços.

Se eu pudesse tingir os dias
com palavras ocas e fúteis
ou soubesse esses ditames
de redes enrodilhadas tecidas
viveria mais contente
ao agrado de toda a gente,
mas não me agradaria a mim…





Triste

Às vezes, sinto-me triste sem motivo,
ou por muitos motivos, talvez.
Talvez porque passaste ao meu lado sem me ver,
ou vendo-me arredaste-te tendo eu passado
sem te ver a ti.

Às vezes, sinto-me assim,
como quem é levado pela corrente
sem ter uma palavra a dizer, sem nada poder fazer
porque às vezes quem manda é o que acontece
sem que os meus dedos sensíveis
possam conter a torrente
dos factos que de um miradouro observo.

Triste pensador dos dias
só não os consigo conter, nem virar a meu favor,
seguem firmes e sozinhos
como afinal também eu estou.

Seguem todos seu caminho
quer tente eu ,ou não, contê-los;
também tu segues o teu
sem me conteres a corrente
dos meus tristes pensamentos
que vêm e vão embora, tão livres,
aleatórios  e esquivos
que vêm e vão sem motivos
ou por muitos motivos talvez.




quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Em alto mar

 De onde vinha o medo de ser livre?  O terror de viver na posse plena dos sentidos, a responsabilidade de ser dono do próprio ser e de navegar com as velas ao vento, medo que corresse mal, de não ser capaz, de falhar; porque esse assumir da própria vida era terrível, opta a pequena embarcação pelas amarras, pelas desculpas que ainda mais  a diminuem, mas a  tornam para sempre colecionadora de ondas que a atingem em pleno casco.
Ser livre não é para todos, ser barco no alto mar dá medo do desconhecido e da imensidão dos oceanos, por isso mesmo não soltamos a âncora e depois de muito balançarmos no mesmo lugar, tal como o barco naufragado pensamos que não há mais mares para navegar e ali ficamos nesse movimento perpétuo dependente das chapadas das ondas, inconscientes para tudo o que há para além.

Libertarmo-nos é amadurecermos, aceitarmos a responsabilidade pelas escolhas mesmo que algo corra mal, aceitarmos largar o porto seguro para prosseguirmos caminho, aceitar que falhamos e que temos de ajustar as velas muitas e muitas vezes  e que isso  depende da nossa força, mas quando finalmente aceitamos que somos donos de nós, que estamos a desbravar o nosso próprio caminho com a lâmina da nossa catana e que não nos podemos dar ao luxo de olhar para aquilo que ficou lá atrás e que nos prendia os movimentos aí, a dança torna-se fluída, os passos leves e seguros e as maravilhas escondidas nos bosques de intrincados caminhos começam a aparecer; é isso, dá medo viver… 


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Adolescência

E nesses dias sem começo nem fim quando tudo ainda restava fazer, quando só havia caminho a percorrer e as planícies se enchiam de flores de cores vivas e suaves brisas perfumadas, os sorrisos ainda conservavam a inocência da infância, mas já com um despontar de adolescência com as suas dúvidas tantas quantas as certezas e os julgamentos impiedosos do mundo, a bicicleta era a  fiel companheira de encontros fugidios e proibidos…
Os dias que se prolongavam até que o sol chamasse para a realidade tal como tantas vezes o fizera para as gerações passadas, o tempo em que não existia tempo e o presente era sorvido até à última gota de sol, último aroma de fruta fresca e madura que brotava da terra que era generosa nesses dias, últimos zunidos de azafamadas abelhas na sua contínua busca pelo pólen ; o encanto do primeiro beijo roubado sob uma nespereira que fazia estragos :  todo o mundo ruía , tudo à volta perdia substância e se evanescia num sentimento sem palavras  quando flutuávamos sem sair do chão num número mágico que perdurava todo um verão.
Ah, doces promessas de uma adolescência precoce, esses tempos em que tudo é esperança e o amor não dói , os dias gargalhados, estridentes e inacabados como se não houvesse nem noite nem dia, dias intempestivos que passavam de rompão sem que nos apercebêssemos tal era a fúria de viver;  esses dias não voltam. Mas fica a lembrança dos dias em que se voava com o impulso de um abraço, se vivia esfomeado de viver num apressar sem pressa, na ilusão das conquistas sem entraves nem impossíveis, dos sonhos que se faziam fáceis, da chuva que não molhava só caía…

Para sempre ficam também as amizades cândidas sem subterfúgios do bando e uma irreverencia juvenil que se espera que perdure para que os dias mais reais da adultez não cansem nem nos cinzem as manhãs que agora já não se nos apresentam assim tão infinitas…