domingo, 15 de dezembro de 2013

Memorial do túmulo

A alma escapou-se-lhe . Vagueou deixando para trás a prisão de um corpo que lhe limitava os passos; não queria ficar mais presa a conceitos que lhe confinavam as ideias, sentia um desejo premente da liberdade que perdera quando crenças e hábitos alheios lhe tolhiam os sentidos. Não podia deixar que lhe sugassem a vida. Sentiu-se leve, leve e sem os constrangimentos de um corpo, sentiu-se tudo e nada ao mesmo tempo e à medida que as fronteiras do concreto se desfaziam tudo parecia ir ficando mais pequeno enquanto ela própria se agigantava. Andou, voou, nem sabia como se movimentava sem membros, mas a verdade é que nunca tinha sentido uma tal leveza, um inebriamento feito de infindas possibilidades… Deu por si num cemitério. Um lusco fusco  caía já, como um manto de neblina densa e húmida pelo que sentiu um arrepio – como a alma se arrepiava não entendia ela – que a fez aconchegar mais a capa ao corpo ausente. Cada passo ecoava pelo eterno silêncio que pairava tornando o ar pesado e a alma apreensiva. Os jazigos lançavam suspiros por entre as brumas de memórias intemporais e por entre as teias de aranha que insistiam em instalar-se, alheias a toda a dor, alheias à angustia das armadilhas da  existência humana. Olhava. Via nomes e datas, datas e nomes. Uns tinham partido cedo, cedo demais deixando inconsoláveis pais e avós, desmembrados para sempre, até quando a morte se lhes juntasse os pedaços. De repente, algo lhe chamou a atenção para além dos crucifixo e das fotografias esvanecidas pelo tempo; as datas. As datas não condiziam. Segundo as indicações tinham passado mais de cento e cinquenta anos. Poderia ter vagueado assim tanto? Quis voltar para trás, assustada agora com o que via, mas algo mais forte impelia-a obrigando-a a  lançar-se para a frente. O que outrora tinham sido homens e mulheres jaziam nas frias tumbas e o único indício de terem vivido eram agora os nomes e as duas datas – uma delas desconhecida dos próprios – a do início e a do fim. Arrepiou-se de novo. Que estava ali a fazer? Teria morrido e não sabia onde era agora a respetiva tumba? Repentinamente um nome chamou-lhe a atenção “ Maria Eduarda Valério” seguida da sua data de nascimento e outra que não sabia – seria então que teria morrido com oitenta e oito anos? O que mais a espantava eram as outras datas todas cento e muitos anos à frente da sua… chorou… queria saber como tinha ido ali parar e porque estava a sua campa tão abandonada à vista das outras. Reparou agora melhor e lá estavam os nomes dos seus entes queridos, todos mortos já. Viu uma fresta aberta e esgueirou-se por lá para assistir ao espetáculo mais aterrador: lá estavam os seus restos mortais e junto deles todos os seus desgostos e desejos, todos os seus problemas e anseios – que pareciam agora à vista de toda a sua família, também ela morta, passados cento e cinquenta anos, ridículos. Saiu do túmulo levando agarrada à face uma teia de aranha pegajosa, o vento uivava deixando o local mais desolado ainda enquanto o corpo parecia voltar-lhe à alma deixando-a agora mais aterrorizada pois os passos eram agora mais pesados e o eco mais ruidoso. Correu. As brumas densas aos poucos abrindo espaço a um raio de luz luminoso ténue e tímido de início para se tornar tão forte que a cegava… “ Acorde, acorde…” A voz do médico sobressaltou-a. As batas brancas giravam num rodopio de tarefas para cumprir. Tinha acordado da anestesia…

 Maria João Varela

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Aguenta-te se és Homem

Em face do sofrimento é que se veem quem são os Homens – dizem – e têm razão. Quando a máscara das aparências se vai para encararmos a dor na sua pujança é que se veem quem são os Homens, quem são os que se aguentam à bronca e não se lhes vacila as pernas; ou mesmo que vacilem quase não se nota porque para além da sua dor, outra muito maior se lhes assoma o leito de morte: o terror de ferirem quem amam.
Era assim, no leito de morte, o meu avô: “  Sabes quem sou, Rosa?” – dizia para a minha avó. “ sou o teu esqueleto preferido”. Sempre até ao fim a tentar dizer piadas que lhe saiam juntamente com algum gemido que escapasse… “ Olha para isto que já não tenho carne, já não sou o teu Carlos”… e tentava sorrir, mas só saia um esgar na face que se tinha tornado em esqueleto antes de entrar na cova. E é assim esta doença, a morte apossa-se da vitima ainda em vida e quando ela se olha ao espelho consegue-a reconhecer, e ela compraz-se com o terror que vê estampado, um terror ainda mesclado de uma ponta de esperança. Mas ele sabia que não sairia da aventura vivo, mas disfarçava na tentativa de poupar a família à dor da perda. “ Oh, Rosa! Olha o teu esqueleto favorito…”
A minha avó, que sempre tinha sido uma mulher de armas ralhava-lhe: “ Não digas isso Carlos,  estás aí para as curvas”. Mas pegava-lhe como se ele fosse uma criança para vesti-lo e não lhe pesava, as peles flácidas, da magreza forçada, no interior das pernas não dava azo a grandes prognósticos, mas ela nunca lho disse. Só dizia: “ Vá lá Carlos tens de comer a sopa”. E ele comia para a vomitar de seguida: “ Vês como sou o teu bebé?”. Aguentava-se à bronca. E ela também. Enquanto ele viveu ela mantinha-se rija e com a força de comandante que sempre a caracterizara e só depois da sua morte chorou e lhe vacilaram as pernas; nunca mais foi a mesma força, embora até tenha casado outra vez...Era um Homem a valer, ela…
E quando a morte vem e nos tira o avô à descarada, dá vontade de a matar. Era pelo menos isso que eu sentia quando olhava a cara de sofrimento dele e via a dela que já se alimentava dele, sem subterfúgios, dizendo sem palavras: ele agora é meu. E perante este facto inexorável, esta revolta que nos alimenta as tripas nós só temos que nos aguentar à bronca e mostrarmos que somos Homens, nem que não passemos de crianças…
Maria João Varela

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Toc-Toc-Toc ( Contos de luz & Trevas)

 - Camila, olha só o que te trouxe? Anda, diz alguma coisa. Gostas? Lúcia olhava a irmã expectante. Esperava vê-la arrancar-lhe o pacote das mãos como fazia em miúda para abrir a prenda que lhe tinha comprado pelo seu aniversário.
- Espera. Agora não posso, pousa em cima da mesa que já o abro.
- Que se passa contigo, Camila? Porque estás a chorar? A irmã aproximou-se e Camila não teve outro remédio se não pegar no embrulho. As mãos tremiam como um bêbedo em ressaca e as lágrimas caiam agora livremente pelas faces. Lúcia reparou agora mais pormenorizadamente no rosto da irmã e reparou que tinha emagrecido muito; começou deveras a ficar preocupada.
 - Olha, anda. Vamos jantar fora – disse-lhe, enquanto lhe arrancava o embrulho das mãos; abres depois, agora vamos comer uma pizza que também é preciso desanuviar, que dizes? Vamos comemorar o teu aniversário.
 - Na… na… não posso – gaguejou. Estou à espera de uma pessoa – mentiu.
 - Uma pessoa? Quem? Já não me dizes as coisas? Que se passa contigo, hein?
 - Agora não posso dizer-te – replicou – Depois conto-te. Agora vai peço-te.
Lúcia despediu-se da irmã, desejando-lhe uma vez mais um feliz aniversário e saiu do pequeno apartamento onde moravam juntas desde que se tinha mudado para Coimbra para estudar medicina. Camila viu-a afastar-se da janela onde tinha ido espreitá-la. Conseguiu vê-la virar a esquina certificando-se de que se afastava de vez pois como tinha a chave do apartamento poderia sempre voltar atrás… Correu para a casa de banho e lavou as mãos repetidas vezes. O coração batia descompassadamente dando a impressão que ia saltar-lhe do peito. Respirava com dificuldade enquanto olhava o pacote que a irmã tinha pousado em cima da mesa da sala de jantar. A curiosidade com o presente dela fê-la levantar-se e dirigir-se ao armário da sala repleto de objetos de limpeza assim como variadíssimos detergentes. Gastava uma fortuna em escovas e escovinhas, esfregões de cores e formatos variados, espanadores grandes e pequenos que pudessem aceder a todos os recantos da casa. A ansiedade começava agora a diminuir enquanto calçava um par de luvas descartáveis começando a abrir o pacote.
A irmã, sempre atenta aos seus gostos , tinha-lhe oferecido uma camisola que tinha cobiçado num dos poucos passeios que davam juntas aos domingos. – Vê, Lúcia, esta ficava bem com as minhas calças pretas, hei de vir experimentá-la. Mas nunca chegou a ir por culpa daquele medo insano que teimava em aumentar…
 Até uma viagem à sua aldeia natal – perto de Castro D’Aire - tinha passado um mês inteiro a planear:  como faria para se sentar, para entrar na camioneta sempre cheia de gente que respirava, sempre uns para cima dos outros. Estávamos já no Inverno e o perigo de um vírus que a contagiasse aumentava pelo que tinha usado uma máscara que tinha tido o efeito esperado de fazer com que ninguém se atrevesse a sentar-se a seu lado. O pior foi mesmo em casa dos pais com o cão e dois gatos que passeavam à vontade pela casa largando o pelo nojento por todo o lado.  E se lhe entrasse algum pelo na garganta? E se os excrementos dos gatos se agarrassem às patas quando eles as  usavam para tapar o cocó e transportassem as bactérias para o sofá onde gostavam de passar as tardes quentinhos junto da lareira? Então sem que ninguém visse pegava nas toalhitas desinfetantes que tinha trazido  consigo e limpava à socapa todos os lugares por onde visse que eles se encostavam…Mas durava pouco a tranquilidade porque logo entrava alguém – era uma casa da aldeia sempre de portas abertas para toda a gente – e ela ficava com uma vontade louca de desinfetar o chão onde tinham pousado os pés infestados de micróbios. Tinha jurado tão cedo não pôr lá os pés quando a mãe lhe perguntou porque passava o fim de semana de luvas calçadas e spray desinfetante sempre à mão.
Pôs a camisola na máquina a lavar e foi-se deitar. Sabia que o sono não viria tão depressa, mas sentia-se exausta e sozinha. Desde que Eduardo se tinha ido que tudo tinha piorado, dantes pelo menos dormia quatro ou cinco horas por noite porque o aconchego dele dava-lhe algum conforto, mas desde a sua partida, há seis meses atrás, tudo tinha piorado e as horas dormidas eram só duas ou três o que se começava a notar já nas rodelas negras à volta dos olhos, outrora grandes e expressivos, e as roupas que dançavam ao sabor do seu caminhar de tão largas que estavam… “ Não aguento mais isto”  tinha-lhe ele dito numa voz que não se alterava nunca, sempre doce, sempre meiga. “Desculpa, mas estás a pôr-me louco e se não te tratas ao menos tenho de me salvar a mim.” E ela tinha-o deixado partir. No fundo sabia que os seus medos eram exagerados, estúpidos até, mas a verdade é que por mais que quisesse não conseguia deixar de repetir os mesmo rituais dia após dia, semana após semana, mês após e isto há sensivelmente de há um ano para cá; os medos comandavam-lhe a vida.
Quando Eduardo chegava a casa ela esperava-o de aspirador na mão para assim que ele se dirigisse à casa de banho para tomar banho – exigência dela – ela aspirasse os pós trazidos do exterior e desinfetasse de seguida todo o pavimento. Depois, ainda de luvas calçadas, pegava-lhe na roupa enfiando-a na máquina e acionando a lavagem, isto todos os dias, a cada chegada dele. Sabia, ela bem sabia ser este comportamento despropositado, absurdo, mas simplesmente não o controlava mais. Desde que a empresa a tinha dispensado passava o dia em casa nisto. O seu trabalho tinha, aos poucos, sido posto em segundo plano em prole de um escritório imaculado. O seu escritório de arquitetura já não continha desenhos espalhados, enrolados uns nos outros, nem as obras pelas quais era responsável recebiam mais as suas visitas de capacete enfiado por cima dos caracóis negros, agora enfiava a máscara, calçava as luvas e limpava o escritório. Quando foi chamada ao escritório do gerente nem estranhou muito a conversa:
 - Camila, tenho imensa pena, mas neste momento vamos ter de fazer uma remodelação no pessoal e os seus serviços não nos serão necessários. Assim, friamente, como se ela não tivesse trabalhado lá três longos anos…
Eduardo tinha dito que precisava ser tratada, mas tratada de quê? Perguntava-se ela. Era tudo uma questão de limpeza, não podia dizer a um médico que era zelosa demais, senão ainda a internavam e depois havia os porcos que nem para comer lavavam as mãos e ninguém lhes apontava um dedo.  Mas também havia o tempo, todo o tempo gasto a lavar a esfregar, esfregar, lavar, sem tempo pergunta ao tempo quanto tempo o tempo tem, não tem tempo, que pergunta ao tempo quanto tempo o tempo tem… tempo tem tempo… adormeceu por fim, exausta , pelas lengas lengas e pelos próprios pensamentos que não lhe davam descanso. Que pior inimigo do que este que habita dentro mesmo dos próprios pensamentos e sempre sem parar, noite e dia, massacra, tortura, enlouquece e  puxa os cordelinhos da mente de quem já não é dono de si?
Dava já voltas na cama há duas horas, desde que a irmã tinha chegado, sensivelmente pelas três da manhã. Levantou-se a custo. O corpo dorido do sofrimento psíquico e das noites mal dormidas, a cabeça confusa e um medo, um medo enorme, incomensurável de perder tudo o que lhe restava, que era já muito pouco. Tinha, em pouco mais de um ano, perdido o seu companheiro, amante e amigo, tinha perdido o emprego e perdia peso de uma forma assustadora, estava um farrapo humano. Nada mais era do que uma sombra pouco fiel da mulher glamorosa de há pouco tempo atrás. As unhas bem cuidadas estavam quebradas dos detergentes abrasivos e das horas de lavagens a que eram submetidas, no entanto no resto mantinha a aparência debaixo do olho critico.
 Os chinelos lá estavam, como os tinha deixado na véspera, alinhados milimetricamente. Recomeçou um ritual repetido todos os dias, exaustivamente. Calçou-os e descalçou-os; calçou-os e descalçou-os três vezes. Dirigiu-se à casa de banho. Largou os chinelos que trazia calçados para enfiar os da casa de banho que lá se encontravam, também eles, alinhados numa posição específica, sempre igual, dia após dia não mudavam de lugar. Este era, aliás uma das discussões diárias que tinha com Eduardo que às vezes na pressa de ir trabalhar não os deixava alinhados como lhe pedia. “ Julgas que tenho o teu tempo? Que importância pode ter mais um pouco para a direita ou mais um pouco para a esquerda? Estás a ficar louca…” . De início achava-lhe piada, mas à medida que foi aumentando o número de exigências de sua parte a paciência dele foi sendo cada vez menor… tomou duche; três vezes se secou, três vezes se enfiou na banheira; três vezes se vestiu, três vezes se despiu; três vezes lavou os dentes, três vezes acendeu e apagou a luz. A cabeça começou a rodar: três, três, três… girava, girava, girava. Um enorme número três aproximava-se e ameaçava engoli-la: três, três, três.
- Camila, Camila, Camila. Acorda, acorda, acorda. Que tens amor? Tremes toda, estás a ter um pesadelo?
 - Não, amor. Estava a ter o sonho mais belo, tu ainda aqui estás, ainda me amas… olha, decidi-me. Hoje mesmo vou procurar ajuda. Vou-me tratar desta obsessão que me mina a vida.
- Que bom, amor. Agora anda senão ainda te atrasas para o trabalho. Já pus a mesa exatamente como gostas. A chávena está virada para baixo, tens três colheres, três colheres, três colheres…




                                                         Fim


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O que é que tu vês? ( Contos de luz & Trevas)

Os passos do cão no andar de cima estavam a pôr-lhe os nervos em frangalhos. Eram lentos, calmos, calmos demais até. Podia ouvir perfeitamente as unhas a raspar o soalho de madeira enquanto se passeava como quem se passeia num domingo soalheiro. Só lhe apetecia subir as escadas e apertar-lhe o gasganete, aquela acalmia toda não combinava nada com o seu estado de espírito.
Pela enésima vez veio-lhe à mente a discussão da véspera. Tinham acabado, nem acreditava ainda, mas ele tinha feito as malas e tinha mesmo saído de casa. Tinha outra, só podia ser isso se não teria tido um pouco mais de paciência com ela que estava sempre pronta para lhe ceder aos caprichos. O cão esganiçou lá em cima, talvez o irritante pirralho, o seu dono mais novo, lhe tivesse pisado o rabo. “… também gorda como estou, mais cedo ou mais tarde iria trocar-me por outra, olha só para isto…” E agarrou na gordura que tinha alojada nas ancas enquanto se olhava ao espelho e contorcia a cara num esgar de desprezo.
“ - Dá cá o telemóvel! Proíbo-te de lhe pegares. Chega, estou farto disto!”  “ -  Deixa cá ver, quem é esta Mafalda? Hein? Andas a trocar mensagens com as amiguinhas, não é?”  E atirou o aparelho contra a parede numa fúria desproporcionada fazendo as peças espalharem-se pelos quatro cantos do quarto, desagregando o que antes estava unido; tal como eles também tinham estado outrora… Pensava na discussão que o tinha feito sair de casa, voltaria a vê-lo?  A vinda para Coimbra não tinha sido a decisão mais acertada. Viverem juntos depois de dois anos de namoro adolescente tinha- a desestabilizado. Teria de conviver com ele diariamente, expor-lhe os recantos tantas vezes disfarçados por roupas largas num estilo que se quer próprio mas que só visa o disfarce. Ele vê-la-ia despida, vê-la-ia ao acordar com os cabelos frisados no ar,  com os olhos inchados, o hálito noturno… não, não e não. Mas por outro lado não o queria à solta, com os colegas pelos bares e praxes, sabe-se bem o que se faz com uns copos a mais…
A mãe tinha resistido muito à ideia. “ – Estás maluca, Sara? Achas que te vou deixar ir viver tão cedo com um rapaz? Tira mas é o curso primeiro, depois logo se verá”.  O pai tinha-se abstido, como aliás sempre fazia no que diz respeito a decisões complicadas: “ – Vá lá Sarita, pensa melhor, tira o curso e goza agora a vida.” Mas ela estava decidida e quando se instalou no apartamento que os pais tinham na Conchada, o Tiago foi  viver com ela. A mãe quando descobriu dois meses depois ameaçou tirá-la do curso “ – Pensas o quê? Pensas que vou andar a sustentar os dois?”  “– Mas mãe, o apartamento é só para mim mesmo, ele não gasta as paredes. A luz e água ele ajuda a pagar.” Não havia volta a dar, o mal pior já estava feito e a mãe não teve outro remédio senão assentir.
“ – Que estás aqui a fazer, Sara? As aulas ainda não acabaram, já é a segunda vez que cá vens hoje.” “ – Não vês que tenho saudades tuas estúpido? E tratas-me assim, como se visses um fantasma? Já não me amas?”  “  - Sabes bem que sim! Vem cá!” E espetou-lhe um beijo apaixonado. “ – Agora tenho de ir para as aulas. Até logo.” “ Amas-me? Amas-me?”- gritou-lhe ela deixando-o embaraçado ao pé dos amigos. “ Até logo “ e virou-lhe as costas entrando na faculdade de matemática onde era caloiro. Ela também era caloira na faculdade de farmácia, mas raros eram os intervalos em que não passava pela faculdade dele para ver se o descobria a falar com alguma desamparada que se lhe quisesse amparar no ombro.
O Cão tinha parado de esgravatar o chão, devia estar descansando agora ou talvez roesse um daqueles ossos que servem para limpar os dentes depois das refeições. Irritou-se com o silêncio. Viria ele ainda? Voltaria para ela?  Levantou-se e foi até à janela. O reflexo no vidro fê-la recuar. Estava gorda, como é que ele voltaria para uma gorda e horrível como ela? Não prestava para nada, nem uma dieta era capaz de seguir para manter a linha. “olha-me só para este cu, está enorme, está mesmo grande e estou toda carregada de celulite. És uma pessoa horrível e nem o Tiago nem outro qualquer vai voltar para ti…” Começou a chorar. Estava mesmo de rastos, os pensamentos estavam agora totalmente dominados por tudo o que de mal havia nela, por todos os fracassos, todos os desgostos, todas as insatisfações com o corpo. Vinham rápido sem nenhum esforço como se tivessem estado à espreita de um momento de fraqueza seu para a assaltarem de dúvidas quanto à sua própria pessoa. Avançou até à cozinha. No frigorífico estavam ainda dois hambúrgueres que lhes teria servido de jantar, mas a discussão acabou por deixá-los esquecidos. Aqueceu-os no micro-ondas e come-os aos dois juntamente com um pacote de batatas fritas que abriu. Sentiu-se culpada. “vês burra de merda porque é que ele não te quer? Só comes merdas que engordam”. Chorava e a ansiedade crescia à medida que recomeçava mais um episódio de empanturramento. Quem não visse não acreditava que alguém pudesse enfiar para dentro tanta quantidade de comida. Mesmo a terapeuta que tinha ,contrariada, consultado no hospital se tinha chocado. “ …agora também não vale a pena, perdida por cem, perdida por mil…” aumentava agora o frenesim com que levava à boca e quase sem mastigar engolia tudo o que ia apanhando por cima da mesa: um pedaço de queijo, um pacote de  Oreos  quase cheio, o resto das batatas fritas do pacote. Depois foi a despensa que levou com o seu apetite devorador: dois pacotes de Dóritos , uma torta da Dan Cake, barritas, …. Não parou durante meia hora, as lágrimas tinham parado, só comia, tanto que lhe doíam os maxilares. Ia engordar dois quilos só hoje. E se ele voltasse? Repararia de certeza que estava mais gorda. Correu para a casa de banho e num gesto cada vez mais repetido levou os dedos à boca e devolveu à sanita,  num esforço que lhe arrancava o estômago do lugar e quase lhe faziam os olhos saltar das órbitas, o conteúdo do estômago feito bolo alimentar. Os vómitos ouviam-se pela casa afora: “HuggghtHugght… HugghtHugght… HugghtHugght…” no final só um silêncio e uns soluços baixinhos, sentidos e a noite que invadia a casa de banho e o resto do apartamento.
Tiago não veio naquela noite, nem na seguinte. A verdade é que não veio mais. Este desfecho era mais do que óbvio, a terapeuta que uma amiga -  a única que se mantinha ao seu lado -  tinha insistido para que procurasse tinha-a alertado: “ – Não vê Sara, que o Tiago não vai aguentar as suas perseguições por muito mais tempo?” “ - Eu sei doutora, mas que quer, eu não consigo parar! Estou muito bem e de repente penso que ele pode estar a falar com outra e tenho de ir verificar. Sabe, é mesmo mais forte do que eu… que hei de fazer? Há dias encontrei-lhe uma mensagem no telemóvel, disse ser de uma colega, disse-me que era para um trabalho de grupo.” “ -   A Sara sabe que há muitos trabalhos de grupo, é normal que esteja a falar verdade.” “ – Eu sei como isso é! Primeiro um trabalho de grupo depois um copo e pimbas. Com tantos rapazes no curso e tinha logo de fazer os trabalhos de grupo com raparigas? Não. Agora já o fiz prometer-me que não falava mais com ela.” “ –  Só quero que saiba que isso não vai resultar, ele vai acabar por se fartar das suas imposições.” “  - Que posso eu fazer, então?” “ -  A única coisa é aprender a viver na incerteza…” Tinha dito aquilo assim, com aquela naturalidade, saberia ela o que era a incerteza? Como se pode viver na incerteza? De certeza que a doutora não sabia o que era desconfiar de alguém. E também desconfiar não era bem o termo, até acreditava que o namorado gostasse dela – pelo menos antes de ter engordado até ficar aquela baleia. Mas era mais como se pudesse prevenir alguma tentação que ele pudesse algum dia vir a ter.
Acordou, tinha adormecido no chão da casa de banho embalada pelos soluços. Pareceu ouvir um barulho e correu para a porta na esperança de vê-lo entrar, mas tudo se mantinha em silêncio.
“  - Acabou, Sara, já te disse, desta vez passaste todos os limites. Enxovalhaste-me ao pé dos meus amigos, deste um estalo à Mariana que não fez nada de mal…” “ – Estava-se a atirar a ti que eu bem vi! Não passa de uma p…a! Vê bem como ela se veste, aquelas meias rendilhadas, as mamas quase de fora e bem vi que ias ao perfil dela ver-lhe as fotos, andas a toda a hora a ver-lhe o perfil do facebook.” “ – Que sabes tu disso? Acaso espias-me o computador? Eh, pá, esta gaja faz-me mesmo passar dos cornos! Sai-me da frente senão passo-te e ferro”. E tinha ido fazer as malas deixando-a num pranto sem que tivesse o mínimo pingo de piedade.
Aos poucos as visitas dela à faculdade tinham aumentado de ritmo. Ia uma, duas, três vezes até que chegou uma altura que Tiago já sabia que quando saísse para o intervalo ela estaria à sua espera. Os colegas e amigos tinham até dito na brincadeira que lá estava a mãe dele para o vir buscar com medo que ele se perdesse no caminho. Foi piorando sempre, revolvia-lhe o telemóvel à procura de indícios de conversas com outras raparigas, via-lhe os bolsos, controlava cada passo dele e agora por último invadia-lhe o computador. Ligava-lhe a toda a hora e se não atendia logo era porque estava com outra; fazia mesmo birra como as crianças: amuava, ficava sem lhe falar e já nem o deixava aproximar-se e fazer-lhe um carinho.  Depois, ultimamente tinha perdido aquele encanto de quem tem autoestima, passava a vida a pôr-se em baixo: “ Vês com estou horrível? Olha só estas banhas! Não me toques, tenho de perder uns kilos primeiro. Ele chegou mesmo por algumas vezes ouvir um ruído na casa de banho “HuggghtHugght…” e suspeitou que andasse a vomitar para manter a linha que estava já no limite, tão magra estava. Falou então com a sua melhor amiga que era de Viseu – como eles – e que se mantinha apesar de tudo ao seu lado. Fê-la prometer que a levaria ao hospital e que não lhe diria ter sido ele a propor-lhe o tratamento porque senão ainda se punha com coisas. Ele desconfiava que ela tivesse bulimia essa epidemia dos tempos modernos, acreditava que se aproximava já de estar anorética, mas ela achava-se gorda. Mas porque é que ela não entendia que, para ele, ela era muito mais do que um corpo? Contava as calorias, passava horas sem comer, nunca tomava o pequeno almoço e quando vieram as praxes e os jantares aí então é que ficou paranoica: “ -  Já viste amor, agora vamos para aqueles restaurantes que só sabem servir aquelas carnes cheias de gordura. Esta semana estava a correr tão bem a dieta, só estava a comer coisas saudáveis”  “  - Depois continuas, são só uns dias…” “ – Isso dizes tu, mas vai-se já notar nas calças. Como posso aparecer depois ao pé das minhas amigas, todas elegantes…” “  - Fonix Sara, tu deves andar a ver mal, és a mais elegante de todas.” “ Oh, és mesmo um fofo! E deu-lhe um beijo lento e apaixonado. Mas isso tinha ficado muito lá atrás e ele agora não aguentava mais as desconfianças infundadas dela.
Acordou. Acordou gelada a meio da madrugada e com um sabor acre na boca, ou seria o cheiro do vomitado que ainda não tinha limpo? Era também doce; um sabor agridoce era mais correto dizê-lo. Levantou-se cambaleando. Tinha dores de estômago, bastante intensas agora que estava completamente acordada. Gemeu e dirigiu-se ao espelho para ver uma cara completamente cadavérica, não era ela, não podia ser, ela estava gorda, gordíssima… gemeu novamente, as dores agora eram insuportáveis. Tossiu e quando se foi lavar viu que tinha sangue na boca, aí estava a origem do sabor: sangue misturado com o resto do vómito que nem tinha retirado da cara. Já não era gente. Viu-se ao espelho por inteiro e pela primeira vez conseguiu vislumbrar o esqueleto em que se tinha tornado. Bem lhe diziam os amigos, bem lhe dizia ele, o seu amor perdido para sempre… cambaleante foi-se arrastando até ao quarto a custo, tirou um cartão que tinha guardado há uns tempos e que dizia que podia ligar a qualquer momento em caso de urgência. Ligou.
- Estou? Sim? Quem fala? Estou? Sara? Pode falar, sim? Vou já enviar alguém. Sara? Sara?...

                                                       Fim
Maria João Varela





sábado, 7 de dezembro de 2013

Velhos

Olha-me bem nos olhos, olha bem fundo nos meus olhos de velho cansado e triste; o cansaço é do peso dos anos mesmo, mas a tristeza, ai, a tristeza essa é do abandono. Sim, eu até posso estar abatido pelos anos de trabalho, poderia até ter uma lágrima fugidia que me escorresse pelas faces enrugadas que seria somente a saudade dos tempos idos de juventude, mas se eu choro e a alma se me encarquilha tanto quanto a pele é pelo abandono.
Eu sei que tens medo. Tens receio de me olhares e te veres espelhado, veres que também este será o teu destino quando a fuga não for mais possível e tiveres de encarar a velhice, assim, cara a cara, quando ela te mostrar que te apanhou; não darás conta, ela surripia-nos a juventude de um dia para o outro: um dia somos novos, no outro velhos. E sabes porquê? Porque fugiste. Porque te esquivaste a olhar-me, baixaste o teu olhar e isso é simplesmente sinal que te rendeste. Cada vez foste  aparecendo  menos e menos vezes, privaste-me da tua companhia e privaste-te de ires convivendo com ela de modo a lhe preparares a chegada, aos poucos para não doer.
Não te iludas! Sendo bom sinal que vivas terás de a enfrentar e só os homens e mulheres de coragem se atrevem; és cobarde, pois.
Já não sirvo para nada, pensas; mas enganas-te. Se pelo menos me deixasses falar-te, me ouvisses – não muitas, mas algumas lamurias – saberias como é quando ela te apanhar e te rachar os ossos e esgaçar a carne, ah ela vai fazê-lo, não te iludas, se viveres ela fá-lo-á.

Aos mais sortudos lá se arranjam lugares próprios onde se podem lamuriar uns com os outros, mas aí sim, as lamúrias de nada servem todos já foram apanhados por Ela. Não tem dó nem piedade essa maléfica criatura que não podia deixar de ser feminina pois tal como no amor, também te endromina aos poucos, mas quando dás por ela estás completamente apanhado, por muito que tentes não escapas à teia que engenhosamente te teceu com a paciência que só tem quem se sabe infalível nos intentos. Por isso, far-te-ia bem teres coragem de homem e olhares-me o corpo curvo, as peles de sulcos profundos e o andar arrastado e muitas vezes acompanhado dos ais próprios da idade, ensinar-te-ia como ao abrires-Lhe as portas aos poucos e Lhe sorrires ela perde um pouco aquele ar aterrador e se faz acompanhar duma amiga bem mais agradável e a única capaz de tornar os seus diálogos suportáveis; se viesses, ensinar-te-ia e eu  já só teria o corpo engelhado, a alma não ; mas tu foges como eu fugi e assim só te resta seres apanhado como eu fui: um dia olhei-me ao espelho e vi que ela tinha chegado…

Maria João Varela



quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Não digas adeus

Moviam-se. As sombras brancas, diáfanas e incorpóreas faziam movimentos ondulatórios, numa espiral ascendente criando um ambiente propício ao delírio. É verdade então que existe vida após a morte, pensei. Não conseguia ver mais nada para além dos movimentos de um lado para o outro. Senti. Então aqui também se sentia dor… Senti uma dor cortante na garganta que descia até ao estômago onde era mais e mais insuportável. Um dos anjos aproximou-se, mas não lhe descortinei as asas; somente nas pontas de uns dedos peritos uma luz forte que aproximou dos meus olhos enquanto gritava: “ Acordou, já acordou”. Os outros anjos aproximaram-se e um começou a falar comigo. Então era assim, e eu que sempre tinha pensado que no outro mundo comunicaríamos com o pensamento e não por palavras, tantas vezes enganadoras daquilo que se sente.
Pudesse eu não ter aquela dor difusa que além do corpo obnubila a alma e não estaria agora ali, se eu pudesse não ter perdido o aroma das rosas, ou o sabor de uma maçã madura… como eu gostaria de não ter perdido o teu sorriso quando me desejavas bom dia, mas por que pensava ainda no que tinha ficado lá atrás?  Ninguém sentiria a minha falta, que diferença faria ao mundo a minha ausência, um fracasso de mulher que nem uma alegria era capaz de dar aos filhos?
 - Consegue-me ouvir? Disse-me um dos anjos que se tinha aproximado ainda mais. Quis responder, mas a voz estava presa, parecia que ficava na caixinha dos pensamentos sem se despegar. Mas saiu-me a custo um “sim” numa voz que não parecia a minha, uma voz desconhecida e fraca aos soluços.
 - Vamos levantá-la um pouco está bem? E pegaram-me dois anjos puxando-me até que fiquei recostada numas almofadas que via agora pela primeira vez, começando aos poucos a ver uma sala com muitas máquinas; uma sala de cuidados intensivos de um hospital.
 Se eu pudesse não te roubar o sorriso… mas o sol apesar de tudo continuaria a brilhar, apesar dos muitos sorrisos que todos os dias se apagam.  Como eu amava, num tempo longínquo quem nunca me amou a mim. Que importava tudo isso agora? Só queria descansar; a lassidão tomava conta de um corpo que insistia em se fazer presente, o mundo virava negro, nem negro se podia dizer que era, mais um cinzento, sem cheiros nem coloridos, tomara eu não te roubar a alegria…
Dormia e acordava no que parecia uma eternidade, e a cada acordar tudo se ia consubstanciando, tornado real, uma realidade a que quisera fugir por não ter mais forças para lutar. Não tinha morrido, nem tampouco estava no céu cheio de anjos, tinha falhado a única coisa que me sentia com forças para fazer. Morrer.
As mãos desencontradas tentavam levar a colher à boca na tentativa de lá enfiar uma colherada de iogurte que a enfermeira bem-intencionada, com uns olhos enormes de bondade, me tinha dado para ver se eu conseguia comer sozinha. Teria de reaprender a comer e a andar nos próximos tempos; conseguiria reaprender a lutar?
Se ao menos os teus olhos não me olhassem com reprovação, pudesse eu escolher e não te daria o desgosto de me olhares sabendo-me capaz de me ir sem te dizer adeus…

domingo, 1 de dezembro de 2013

TIC-TAC

6.45. TIC- TAC, TIC-TAC. Começou o dia já atrasada, como sempre começava. Mal se olhou ao espelho enquanto se enfiava já debaixo do chuveiro para espantar a preguiça que teimava dia após dia em fazer-lhe companhia à mesma hora da manhã. Não sentiu a água morna que lhe acariciava a pele, nem a espuma macia e menos ainda o cheiro do perfume suave que lhe penetrava as narinas. Por que razão corria? Havia tanto a fazer, tanto caminho a desbravar, ou seria somente medo de parar e se olhar? Não pensava nisso. Não tinha tempo, não tinha tempo… mas, e se simplesmente abdicasse dos dias repartidos, se simplesmente pousasse de vez essa máquina de contar vidas, que reparte o tempo em frações tão ínfimas que parece que nos escapa, tal como escapa a areia de uma ampulheta. TIC-TAC. TIC-TAC.
Não via interesse nas deambulações mentais matinais, era somente a sua incessante mente  nas suas conhecidas distrações, mas a verdade é que quanto mais corria mais tinha de correr e até o lenhador sabe que, por vezes, é preciso afiar o machado para continuar a cortar a lenha.
Por esta altura estava já a enfiar pela garganta abaixo sem sequer saborear o seu pequeno almoço, se é que se pode chamar isso a uns flocos mal amanhados sabe-se lá contendo o quê e corria batendo a porta do pequeno apartamento enquanto deixava o gato a lambuzar-se pachorrento com o seu filet mignon. Sorte a dele de ser gato e não ter de salvar a sua espécie; cada um salvava-se por si só, inteligente espécie esta.  Mas ela não teve tempo  nem de lhe passar a mão no pelo cinzento nem de lhe sentir a  suavidade felina ou  sequer de lhe apreciar as formas de gato  pois avançava já escadaria abaixo enquanto enfiava a manga do casaco  pois o elevador, como sempre que o esperava, roubava-lhe mais uns segundos. TIC-TAC. TIC-TAC.  Saiu.
A corda com que lhe tinham dotado a existência continuava na sua marcha lenta e inexorável a reduzir-lhe os dias e, este boneco de corda que, por acaso se chamava Maria, nem se dava conta de que ao acelerar a marcha também a corda, na necessidade premente de corresponder ao esforço, se gastava  na fugacidade dos dias ainda por gastar… TIC-TAC. TIC-TAC.
Estava um frio invernal por isso aconchegou o cachecol e entrou no carro com gelo no para brisa. Não apreciou o sorriso que uma criança trazida pela mão do pai lhe deitou, não teve tempo pois olhava o relógio na tentativa, sempre falhada, de chegar a horas. Que tirânico objeto que lhe roubava a vida sem que ela se importasse… não tinha tempo.  Não olhou um sem abrigo que se tentava aconchegar no seu buraco frio e húmido, nem ajudou uma  velhinha a atravessar a rua, ia tão apressada para salvar o mundo. TIC-TAC. TIC-TAC.
Não ouviu os risos adolescentes, nem apreciou no céu de inverno um sol tímido a despontar, não correspondeu ao bom-dia do padeiro – nem tampouco lhe apreciou o cheiro de pão quente acabado de fazer – não. Apenas gastava a corda olhando um futuro distante e prometedor enquanto deixava escapar o presente, por entre uns dedos frementes de uma vontade louca de viver, vontade essa sempre adiada pela força do pequeno e constante TIC-TAC. TIC-TAC.



quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Esquizofrenias

Toca o sino, mia o gato, viraram-me  os sapatos : quem vem lá para me  matar? Que  incompreensão, quem me irá salvar?  Já não sou quem era, quem naquela esquina me espera? Vejo ao longe alguém espreitar… quem me quer tramar? Nada é como era dantes. Porque está tudo tão mudado, tudo fora do lugar? O céu desceu, a árvore caiu, o mar desapareceu… e eu… saí da hibernação. É hora de  lutar, todos me aguardam em loucos anseios, vejo o sol  em brasa que se vai deitar.
Não paro, não posso parar! Aguarda-me o mundo para o salvar. Quem me levou o meu eu? Quem me roubou os sentimentos, os pensamentos, como tudo o que era se foi… estranho mundo que mudou, quem eu era; já não sou… foi o vento que o levou. Ponho asas e em loucura procuro o rumo, não sei se fico, não sei se vou. Sei que foi por mim que tudo isto mudou; não há chão para caminhar, está tudo fora do lugar, do lugar, do lugar… coisa estranha, este vazio, tenho calor, tenho frio, estou feliz, alegre, triste, que verdade me assiste?
Que dizes? Deliro eu? Quem és tu? De onde vens, porque vieste? É que este espaço é meu, tudo é meu, tudo é  meu, meu, meu…vejo atrás daquela porta alguém para me matar, quem me salva deste inferno? Deste agror, deste temor. Verto sangue, verto dor, quem me levou o meu eu, eu, eu… estereotipias verbais? Que dizes?  Estarás louco? Vou-me, o mundo espera para que eu o vá salvar.

Devolvam-me os pensamentos! Devolvam-me os sentimentos! Quero voltar a ser eu. Quero o mundo como sempre: céu azul, céu cinzento, cores garridas nas janelas; quero a árvore erguida, o sol no mesmo lugar; foi-se a lua foi-se tudo. Quem me quer voltar a matar? Já morri, apodreço… tudo fora do lugar… toca o sino, mia o gato, viraram-me os sapatos, sapatos, sapatos… vem alguém para me matar, quem me devolve ao meu lugar?

Lembra-te

Que histórias te contas para te embalares
 quando as horas dos ventos tempestuosos
 só te querem derrubar?

Que versões da tua história guardas
 e pincelas de cores brilhantes para te mimares?
Que te dizes? Que te contas dos teus feitos
das vitórias já passadas; ainda te lembras?
E, quando as dores te abrasavam, persististe.
Ainda te recordas, das horas tristes?

E, quando chorar era inelutável
E de mãos trementes as lágrimas enxugavas
Para degustares  o mel por detrás do sal,
que as tempestades amainam e o sol aguarda…



quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Incongruências pias

Perguntava-me amiúde porque não eram elas tão  púdicas por dentro como por fora. Saias protegendo dos desejos pecaminosos da carne, pesados véus a cobrir os cabelos, que numa, eram de um ruivo de fazer inveja a muitas que tinham de lutar pelo amor de um homem, mas ela não, já tinha o seu eterno e fiel e fizesse ela o que fizesse nunca a renegaria como esposa; e aí reside todo o mal pois não tendo um marido a quem dar satisfações para quem seria ela melhor pessoa? Um marido virtual não tem a mesma força de persuasão apesar de tudo. Sempre me perguntei por que não eram as freiras melhores pessoas do que todos os outros; não era o voto de amor ao próximo a característica mais essencial da sua profissão? Incongruências pias pois lá tempo nas ladainhas de rosários passavam elas muito… mas não se lhe viam que surtissem efeito pois até me parece que em termos de percentagem, lá dentro do lar de meninas carenciadas a que presidiam, elas se saiam mal no que às características de um bom coração diz respeito. E isso afastou-me da religião. Não iria eu a um médico que não soubesse medir a tensão, ou a um sapateiro que me deixasse as solas dos sapatos rotas….
Estas incongruências sempre me incomodaram e sempre desconfiei por isso mesmo de epítetos e etiquetas que se colam deixando que se ajuíze da conduta de alguém antes de lhe conhecer os atos: são perigosos. São-no porque causam enganos. Um desses enganos é quando somos pouco mais do que crianças e vemos tanto aparato santo junto, se um destes expoentes máximos da moral e bons costumes nos diz que não valemos grande coisa temos tendência a acreditar na mentira; mesmo quando nos obrigam a passar nove horas por dia a fazer rendas finíssimas com que as madames da sociedade disfarçam as angústias casamenteiras e com que nós furamos os dedos, nós acreditamos que é para nosso extremo bem mesmo que não ganhemos um chavo e tenhamos de pedinchar para ter direito a um champô… meses e anos assim, passei-os eu porque apesar de tudo tinha um teto e um prato de massas com umas gorduritas a boiar; ah, é que o filet mignon ficava no andar de baixo, covil das lobas, que tinham feito voto de pobreza, mas deviam na altura estar a pensar em nós…
Se queríamos vê-las rabear fazendo esvoaçar o véu era quando o padre vinha lá ao lar: espalhavam-se odores que sempre me pareciam afrodisíacos e os sorrisos rasgavam-se, as vozes amansavam e as mãos aproximavam-se dos terços numa devoção fingida e beata que já não convencia ninguém. A cada uma delas lhe conhecíamos o cavaleiro de carne e osso porque o virtual no que toca a desejos e anseios muito humanos deixa muito a desejar.
Assim se foi a réstia de esperança que eu pudesse ter em salvações impingidas por outrem, se alguém me anuncia a salvação em taças sebosas de pecado só posso desatar a rir com tal disparate, é que isto de ser padeiro e deixar o pão para os outros amassarem não traz clientes com fome…