domingo, 26 de janeiro de 2014

Praxe ou Praxes?

Pensei em escrever um texto cheio de argumentos em desfavor da praxe, mas depois pensei, para quê? Já alguém tentou demover um defensor das touradas de barrancos da barbárie que comete, um fanático religioso da sua crença ou um defensor ferrenho do seu clube futebolístico?  Eu já, mas perco sempre… e perco porque o que legitima a sua ação não são argumentos baseados na razão, mas a emoção: a emoção dos golos marcados pela equipa, e emoção de ver um touro sangrar na arena, a emoção de se saber mártir de uma causa  para depois contar com 72 virgens no céu… contra a emoção não há argumentos de razão… Nestes tempos uma das palavras mais ouvidas é a tradição: “ nas tradições não se mexe…” eh pá, onde é que eu já ouvi isto? O mesmo argumento  servia noutros tempos para legitimar o facto das mulheres não poderem votar, os homens não poderem fazer lides domésticas, abusos de todo o género; arrepia-me e sempre me arrepiou a palavra tradição quando serve para legitimar o mesmo estado de coisas que não admite a razão, tenho-me lixado bem com esta postura, mas é uma necessidade para mim fazê-lo,  é que tenho este vício de gostar de ver as razões por detrás daquilo que faço, mas neste país isto é um crime que se paga caro, tão caro como o pagam os estudantes que se oponham à praxe, vá lá sejam honestos haverá mesmo liberdade de escolha? Não são ostracizados, segregados, minimizados os que se opõem?
Cabe-me fazer bem a distinção entre as praxes, pois não há praxe, mas sim praxes. Há aquelas praxes que são brincadeiras onde não há abusos, onde reina o respeito mútuo, onde os caloiros não são levados a fazer figuras de estúpidos com orelhas de burro – aquele hábito antigo e estúpido, lembram-se das professoras das escolas primárias? É pá é que é mesmo chato ver rapazes e raparigas que até nem são estúpidos ou burros fazerem – note-se, voluntariamente – figura disso; é que digam o que disserem: “ só percebe da praxe quem a viveu”, há todo um conjunto de absurdos que as pessoas veem na rua e há sempre o velho ditado, que por ser velho também é tradição “ Mais vale sê-lo do que parecê-lo; e as pessoas veem figuras de parvo, figuras de javardolas, de mal “educadês” … E antes que me critiquem o neologismo era isso que eu gostava de ver os jovens fazer: criarem coisas novas; é que os palavrões com que se “acarinham” uns aos outros já são muito velhos, tão velhos como as tradições absurdas que tão fervorosamente defendem; mas digo já que só estou a a falar das tradições absurdas, aprecio o que vai ficando de geração em geração impondo-se pela sua validade. Sou completamente a favor da integração ao caloiro: estar numa cidade nova, pela primeira vez sozinho não é nada fácil; só que, não sei porquê, não consigo é fazer a ponte entre acolher, ajudar, integrar e os litros de vinho e cerveja entornados - para dentro e para fora -, gritos de ordem de caloiros masculinos: “ eu a levar no cu não sou uma menina…” ; simulação de atos sexuais; bosta a cobrir o corpo, ad infinitum; mas também reconheço que deve ser uma limitação cognitiva minha.
Os pais estão preocupados, devido ao que se passou no Meco, devido ao facto de serem perigosas as praxes, eu penso que retirando o facto de ter, provavelmente, sido uma praxe que correu mal, os pais descansem porque as praxes no seu geral não são perigosas: são estúpidas, porcas e ridículas  visando o tão valorizado controlo social através do medo: haverá medo maior do que ser desprezado? Gozado? Ridicularizado?  
Também dispenso ouvir – para justificar o injustificável -  falar das amizades que se fazem para a vida, da emoção de um fado cantado num timbre único e emocionante – que adoro – do espírito de interajuda: estou em Coimbra e já conheci gente oriunda de países que nunca imaginei, fiz amigos que considero serem para a vida e vivi e vivo a emoção da minha faculdade fazer parte do Património  da Humanidade; surpresa : não fui praxada…Se compro um pacote de bolachas sortidas sou obrigada a gostar de todas? Mais um vicio tramado meu, só gosto das boas…Urge separar o trigo do joio…
“Isto não é praxe”, “na minha faculdade não é assim”, “ Chamam praxe a atos de desrespeito” É isso mesmo, insurjam-se estudantes de Coimbra, e venham dizer de uma vez por todas então o que é… e escrevam para ficar para a posteridade, para quando forem os vossos filhos a entrar na Faculdade poderem reportar abusos sem serem penalizados e já agora ensinem-lhes depois que as regras se podem sempre questionar e quem sabe quebrar… E sejam sempre os primeiros a condenar os abusos em vez de quererem matar o mensageiro. 

Maria João Varela



sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O meu beijo?

“O meu beijo?” Esticavas os lábios num pedido eloquente tão carente de afeto, tão despojado do falso orgulho que outrora te tornara numa das personagens mais imponentes que tinha conhecido; ademais eras uma figura atemorizadora. Gostavas de arrebatar corações com as tuas paixões que não admitiam oposição e parecias invencível, qual fortaleza que tenha sobrevivido às intempéries dos séculos e sanha destruidora da época moderna. Eras tão sóbrio de espírito com uma clareza de ideias a toda a prova que desmontava argumentos opositores como uma criança desmonta, ao fim do dia, os seus brinquedos de lego. “ O meu beijo?” – repetias agora até que eu te fizesse a vontade e me levantasse pela enésima vez para te acariciar e beijar as faces cujo relampejo durava apenas um segundo para voltar ao embotamento que agora se  te ia colando às pregas fundas de uma pele tanto menos atrativa quanto mais necessitada de beijos. Mantinhas teimosamente a lucidez para nos privares do consolo de te saber inconsciente da tua condição de velho, retiravas-nos essa tranquilidade de consciência para que nos acercássemos de ti para nos poderes pedir o beijo.
Passavas agora os dias a olhar por uma janela aberta para o infinito, num vazio existencial sem finalidade nem propósito que não ver passar as visitas que se aventuravam a testemunhar-te a queda. Muitos não vinham só para não terem de te encarar nas tuas fraquezas como se ao testemunharem-no fossem também eles cúmplices de tamanha injustiça. Não nos ensinam a perder; viver é ganhar, é subir, é crescer, mas é também cair e isso ninguém ensina, ou somos nós que não aprendemos…

 Nunca nos preparamos para este devir, nunca fazemos planos para este tempo em que o tempo deixa de ser parcelado e passa a um continuum onde a única coisa que destoa,  para além do dia e da noite, que quebra a monotonia da paisagem de dias monótonos, iguais entre si, será  a presença de afeto. Quem se prepararia para o inferno? Preparar-se seria já viver  o tédio da espera, de alguém que se lembre da morada de um velho sombrio, quando as luzes de mil atratividades chamam a esquecer esse dia, o nosso dia de pedir o beijo que não vem…

Maria João Varela


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Falidos

Falimos. Esta sociedade está falida porque já não existe a moeda de troca com que nos endrominaram, fazendo acreditar que teríamos justiça e paz, onde não prevaleceria a luta de todos contra todos; só teríamos de abdicar da nossa liberdade herdada à nascença e poderíamos ver desabrochar todo o nosso potencial humano enquanto as injustiças criadas pela própria natureza onde uns nascem mais preparados para se adaptarem do que outros seriam amenizadas. Uma sociedade onde mães de família trabalham de sol a sol para dar de comer aos filhos e mesmo assim têm de ir pedir às instituições de caridade, onde senhoras de 90 anos vêm os filhos – com 50 e mais anos – regressar com os netos e ajeitarem-se como podem num chão frio onde se improvisam uns colchões, onde as crianças vão para a escola com fome comprometendo as suas capacidades cognitivas e o futuro de um país; essa sociedade está falida.
Atiram-nos com números à cara. Números. Para essa gente de gabinete as pessoas são números, como o eram para o regime nazi e para todos os outros regimes cobardes que não têm coragem de encarar a dor cara a cara. Razão tem o escritor António Lobo Antunes quando diz que “essa gente vem de uma incubadora partidária e lá se mantém…” nunca saíram da incubadora e por isso não conhecem a realidade e também não conhecem a História, esta de letra maiúscula que nos conta que todos os regimes que negaram as evidências, fecharam os olhos à realidade estavam já no seu começo do fim… Atiram-nos com os números: desemprego a baixar. À custa de quê? Imigração e pessoas ocupadas duas horas por dia? E pessoas a trabalhar abaixo do ordenado mínimo? Só não sei se concordo com o escritor que num olhar poetizado nos diz serem os portugueses príncipes; serão príncipes ou mártires em causa alheia?
Estamos falidos. Uma pequena minoria da sociedade civil vai aguentando as estruturas de um império em queda, mas sendo uma queda inevitável só estão a dar os cuidados paliativos ao moribundo, que tarda entretanto em falecer e dar origem a uma sociedade mais ética. A ética que não tem a casta que nos governa e que talvez só terá uma outra geração criada com valores diferentes. De que nos valeu o Contrato Social em que abdicámos da liberdade de nos defendermos como dita a natureza? Serviu-nos apenas para entregarmos todo o nosso esforço em mãos caprichosas que não redistribui a riqueza? Então mais vale trazermo-la de volta que ao menos correremos em prados verdejantes até sermos mortos por um qualquer espécime maior ou mais forte do que nós, mas sabemos que a vida é isso mesmo a luta do mais forte. Agora a injustiça mascarada?

Numa coisa junto-me a Lobo Antunes: na injustiça que está a ser feita, onde os espécimes da pior raça estão a empanturrar-se enquanto veem os seus próximos enlameados e caídos pedindo uma esmola… estamos mesmo falidos, só ainda não pedimos foi a insolvência…

Maria João Varela


sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Aventuras num hospital psiquiátrico

As paredes do hospital eram de um branco encardido e o cheiro, embora ali não houvesse feridas para desinfetar, era o característico dos hospitais como se o cheiro do sofrimento, fosse ele qual fosse, emprestasse às enfermarias independentemente da especialidade de pertença o mesmo cheiro antissético , o mesmo que embora fosse desnecessário poderia afastar o cheiro a calor humano, precioso, se existisse. O pijama largo e às riscas finas, azuladas era igual ao dos outros pacientes, farda imprescindível dos loucos e atrasados que conheciam o seu lugar e permaneciam cada qual com o seu distúrbio unidos num qualquer laço de familiaridade e não se percebendo bem porquê unidos contra o pessoal que prestava os (in)devidos cuidados de saúde; não tinha importância, contudo, se era bonita ou feia a indumentária, o aspeto físico há muito tinha perdido o interesse e enquanto me arrastava para o gabinete do psiquiatra, passos ainda cambaleantes, pensava já na forma de escapar daquele lugar o mais rapidamente possível. Era verdade que ainda nos cuidados intensivos tinha acedido ao pedido de me deixar internar na psiquiatria, muito por culpa dos tratos carinhosos que lá me tinham sido facultados, mas agora que me encontrava lá, junto com toda a panóplia de doenças mentais imaginárias, sabia que corria sérios riscos de ficar pior do que à entrada. Mais a mais quando me começaram a medicar sem ainda deixar de estar  intoxicada pela quantidade astronómica de barbitúricos que tinha ingerido para pôr fim a uma vida que se tornava de um cinzento insuportável, onde a graça e as cores já não existiam mais… A  enfermeira de serviço irritada  perante a minha resistência à tomada dos mesmos: “ então agora não gosta de comprimidos? Está muito esquisita para quem acabou de tomar uma dose extra.” Claro que ainda não tinha o crítico interno a funcionar bem e tratei-a mal com uma réstia das forças que me tinham sobrado da luta de meses contra uma depressão galopante. Fui acusada de não cooperar e o doutor que tão prontamente me tinha receitado as pílulas cujas cores garridas causam a dependência, muito por culpa da aparência lúdica que têm, achou por bem tentar trazer-se à razão pelo que me fiz ao gabinete pronta a confrontá-lo. Mostrou-se fino nos tratos e quase me convencia da superior vantagem que seria para mim naquele momento tomá-los, ainda turva das ideias do louco desvario que tinha tentado cometer, mas fingi ouvi-lo pois a lucidez começava a surgir e achei por bem aquiescer até porque a matrafona da enfermeira me tinha ameaçado forçar a toma dos mesmos com o recurso a camisa de forças, se preciso fosse, como se vê nos filmes: “é que vai à força se for preciso!” Vingou a minha rebeldia e intimamente até me divertia quando uma semana mais tarde diziam aos meus familiares poderem deixar-me sair, se assinassem um termo de responsabilidade, pois os antidepressivos, os mesmo que eu fingia tomar enquanto a matrafona me olhava pelo canto do olho para os despejar de seguida pela sanita abaixo, estavam a fazer efeito e eu estava a melhorar a olhos vistos.

Maria João Varela

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Que seria do amor?

Já passava da hora. A hora habitual quando te despedias em bicos de pés e com um afago nos meus cabelos largavas os lençóis que deixavas sem remorsos abandonados e frios, sombrios e sem as formas sedutoras com que os enformavas a eles. Tardavas. E eu perguntava por que haverias tu de te prolongar na tortura da despedida prolongando desse jeito o meu desespero também. Por que contam as horas para os amantes? O amor não tem hora. O amor apega-se à pele, entranha-se na carne e já não sai, nem à força das badaladas do sino da igreja que ciumento deixa as horas passarem mais depressa… Deixavas-me entregue aos mesmos desvarios, também eu só e abandonada. “Voltará?” Pensava eu. E os lençóis pareciam gemer com a dor da tua falta… caía-me uma lágrima. Tardavas. Eu enroscava-me um pouco mais saboreando de avanço a dor da partida na hora em que o amor parece mais forte pela força emprestada pela saudade… Respiravas fundo, dormirias embalado pelos momentos de amor vivido, num prolongamento sonhado? Ter-te-ias esquecido das horas? As horas, essas mesmas que tanto amor roubam aos amantes deixando um doce rasto de “já vivido”, uma doce e suave lembrança nas bocas sedentas de mais e mais prazer.   O amor não tem hora, nem idade, não cabe em cronologias humanas; é o castigo que os deuses dão encurtando a vida, acelerando as horas ao ritmo dos corações. Imaginava-te levantando-te, nu, trocando os lençóis pelas calças que ganhavam vida começando a andar… andar para longe. Por que razão sorrias agora? Olhava-te no teu enlevo e não queria mais nada, somente que não passassem as horas, as mesmas que apesar disso teimavam em acelerar. Tardava. Amanhecia quase, como era possível que te tivesses esquecido delas? Das mesmas que te roubavam de mim? Sabe-se que há amor quando as horas correm em vez de passarem no seu leve balançar. Chamei-te: “ amor, amor, são horas.” Nada. Só um suspiro mais profundo e mandaste as mesmas às urtigas. Agora mais forte: “amor, não te atrases” como se o amor se cingisse ao tempo, logo ele que é intemporal… “Hã? Ah, não te disse! Eu não vou, aliás, não vou mais…” Assim, sem mais. Acabavas-me com a promessa de um despertar agridoce, em que já eras só uma lembrança, em que o amor perdurava nos sentidos da memória e avolumava-se na tua ausência. E agora? Calavam-se as badaladas  do relógio que se sentia vingado podendo reduzir a marcha ao saber-te meu, sem outros entraves. Deixáramos de ser amantes sequiosos, os dias poderiam agora ser mais lentos,  seguir o ritmo habitual; fora-se a urgência, mas assim  sem despedidas nem cama vazia, sem o choro dos lençóis  sem o peso da partida, sem saudade, sem a minha lágrima, que seria do amor?   

Maria João Varela

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A conquista do ponto "G"

Ao homem foi dado desbravar continentes e vencer tempestades conquistando impérios ao dominar os oceanos, passou o cabo das tormentas para chegar a terra firme;  matou, esventrou e foi dono e senhor dos impérios conquistados a golpe de afiadas espadas; a mulher conquistou o ponto G e foi essa a sua maior conquista. Claro que ao ser conhecedora de que o criador não a tinha castrado, como acreditava Freud, que não era desmerecedora dos prazeres carnais e que não era por isso mesmo responsável pela queda e expulsão do paraíso, imbuída dessa confiança partiu para outras conquistas… ora o homem não gostou. Para além das conquistas que lhe eram asseguradas bastando desembainhar a espada, teria agora de conquistar o cume das conquistas femininas pois esta tinha ido à lua e já não se contentava com algum macho incapaz de lhe aflorar a bandeira.
Pode parecer redutora a teoria da conquista feminina ser o dito ponto “G” que tantos detratores se negam a aceitar, mas não: é que saber-se digna do maior prazer à face da terra - concupiscente é certo -  levou a mulher a acreditar ser digna de todas as outras coisas também; senão por que razão haveria o criador de a prendar com um tal éden não fora a intenção de lhe suavizar o caminho rumo a conquistas mais modestas, mas mais duras? Não é à toa que em todas as sociedades onde a revolução sexual não entrou as mulheres se sintam indignas de conquistar outros terrenos pois sentindo-se menos capazes que o homem nesse âmbito, sentem-no nos outros também, nem é tampouco inócuo o facto dessas mesmas sociedades lhes negarem tal direito com casamentos arranjados, violações, excisões e outras barbaridades. Não se minimize pois a conquista o ponto “G” pois enquanto o homem andava em sangrentas batalhas a mulher, sabe-se lá por que meios, foi conquistando e conhecendo o seu corpo por tantos séculos conspurcado e defraudado acusado de ser o templo do pecado, o homem fazia por isso pois tremia de terror que a mulher ao se conquistar a si mesma, ao saber que não  veio a existir só para  parir com dor como tão biblicamente lhe apregoavam as escrituras, fosse conquistando os terrenos que eram seus pela força.
A mulher veio a conquistar, não pela força, nem pela espada, mas pela inteligência e confiança que lhe era dada pela ida à lua onde deixou a bandeira e onde só um homem verdadeiramente corajoso se atreveria na travessia, que é feita a dois, mas que no final premeia também quem se arriscou. Ganharam os dois nessa conquista feminina: a mulher porque se soube capaz de outras paradas, o homem porque soube que a mulher não lhe quer roubar nada, apenas tão e só o que é seu por direito, ou seja, tudo…






Maria João Varela

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Maneirismos

Víamo-la chegar e acomodar-se no seu canto, o seu canto há mais de trinta anos. Pelo canto do olho apreciávamos os mesmos maneirismos, o mesmo tom afetado de voz, agora um pouco mais rouca, é certo, mas reconhecíamos-lhe todas as tonalidades; continuava um génio, em decadência, mas um génio. As mãos displásicas e o queixo caído – não de espanto, mas de nascença – seguravam um eterno cigarro aceso que umas vezes fumava outras não, reconhecíamos-lhe o encanto na decadência. Era certo que o vestido encarnado aos quadrados pretos e brancos não lhe assentava como outrora, nas noites a fio que passava a defender ideias progressistas e ideais impossíveis de concretizar, exceto na sua mente prodigiosa de jornalista, mas dava-lhe um ar de inconformismo acentuado pela leveza com que declinava a oferta do garçon quando já lhe adivinhava os desejos: “ Uma Margarita, senhora?” Odiava ser previsível por isso logo se apressava em pedir outra coisa que rapidamente lhe passasse na ideia. Adorava a bajulação, sorria disfarçando perceber o cheiro a  falso quando a cumprimentavam os cavalheiros de ego destruído nos artigos cáusticos feministas das suas crónicas semanais; eram preferíveis, contudo, aos cochichos das senhoras bem casadas… claro que ela nunca casou, dispensava atilhos desses e ia-se aconchegando como podia nunca lhe faltando macho – algum corajoso – principalmente nos frios invernos parisienses.
Era um pouco triste, vê-la agora, tantas vezes a falar sozinha, ou quem sabe para algum fã invisível mais persistente, enquanto se via o ar descuidado com que tinha calçado as meias de vidro onde dantes não se lhes vislumbrava um vinco. « Merrrci, mon chérrrri», vincava os “r”(s) mais que o necessário para vincar uma personalidade única onde uns cabelos negros e curtos marcavam a rebeldia de uma juventude boémia e ativista e quando se levantava cansada do seu canto onde tinha deixado a frescura perdida caminhava encurvada pelos anos de luta, mas não perdia os maneirismos com os quais segurava o cigarro, sempre aceso para lembrar que a alma, essa não se curvaria nunca…

Maria João Varela


domingo, 29 de dezembro de 2013

Fobias

E quando por algum motivo acabava sozinha, plantada no meio da multidão, num local público qualquer,  por algum amigo que me acompanhasse precisar de se ausentar por momentos, de repente, como por artes mágicas todos os olhares se viravam para mim; não sei como, mas descobriam que me encontrava sozinha, perdida, abandonada. Alguns riam de mim, aos cochichos uns com os outros, e comentavam que eu não era digna de companhia, ninguém gostava de mim, eu sabia que começando a andar iria parecer estranha, desengonçada, mas tinha de sair dali rapidamente,  começava a dar-me calafrios e ora a transpiração era quente, ora fria, deixando-me as mãos pegajosas…  Começava depois a sentir o coração aos coices lembrando-me que estava em perigo de vida e que se ficasse ali iria ter um ataque; a verdade é que parece que o filme da minha vida tinha parado de passar e só aqueles olhos pareciam aumentar de tamanho até ficarem gigantescos e eu pequenina e tremente qual cria acabada de nascer e que é deitada ao mundo sem o consolo da mãe; lá ficava paralisada no meio de toda a hostilidade do mundo; ganhava então um pouco de coragem e desviava-me para um canto, longe dos olhares reprovadores e à medida que me afastava mais e mais do foco do perigo e me ia sentindo mais e mais calma, tudo parecia voltar à normalidade, cada um conversando com os amigos ou família, os olhos voltavam ao seu tamanho e já pareciam não me ver. Acabava, assim, por me sentir em paz com a decisão de me esconder e evitar ser vista, mas bem lá no fundo pressentia que da próxima vez iria ser ainda pior… A questão é que me parecia sempre que tudo se passava como se eu já não estivesse aos comandos da minha própria vida, como se toda aquela situação  estivesse à partida escrita por qualquer guionista, onde eu só tinha de representar o papel que me tinha calhado. Pensamentos, emoções e até a fuga para um canto remoto da sala pareciam acontecer como se uns se seguissem aos outros, de um modo encadeado como contas de um rosário,  e ser impossível um outro desenrolar da história: a coisa era-me servida num pacote; tinha comprado o pacote todo, tinha de o usufruir por inteiro…  E parecia vir de muito longe todos os acontecimentos, de um tempo em que, ainda criança, me tinham dito « Não prestas, sai daqui,» de um tempo em que era posta de lado, em casa e na escola. Lembro-me como se fosse ontem, ou hoje de manhã, da primeira vez em que a professora chamou o meu nome da sua secretária e todos aguardavam a minha resposta, aí foi como se eu me tivesse movido e com um impacto brutal tivesse chegado ao pé dela e respondido ao que me era pedido, sem nunca ter saído do lugar.
Maria João Varela

sábado, 21 de dezembro de 2013

Conto de natal

Cambaleava. Ligeiramente, mas cambaleava. As luzes de natal já há muito se tinham apagado e ele, de roupas húmidas por cima do corpo gélido procurava. Era cedo ainda, aqui e ali via-se o alaranjado das lareiras cujo fogo era mantido a noite toda, num alegre crepitar deixando perceber o conforto dos lares, quentes e cheios de gente. O olhar triste e abandonado era, por estes dias, mais triste e mais abandonado ainda, o contraste com as festas familiares que se viviam nas casas de mesas  abundantes era mais gritante que nos dias comuns. Ele sabia que dentro de dois dias é que os caixotes do lixo abririam as bocarras a abarrotar dos restos que os outros, cansados de tanto comer, atiravam fora, enquanto isso ia fazendo a ronda na tentativa de chegar aos restos primeiro que os seus rivais; é que aqui também se compete, pela comida que não tenha ainda sido contaminada por outros lixos menos comestíveis.
Sentou-se cansado. Nada. Não havia nada ainda, bem sabia que na noite de natal quase ninguém saía do seu conforto para despejar o lixo; teria de esperar, mas o estômago quase colava às costas de tanta fome e os sapatos rotos deixavam à mostra um dedão do pé com uma unha negra de sujidade de meses, mas fê-lo lembrar de outros natais, onde também tinha sentido o conforto da família, isto antes do desemprego o empurrar para as ruas… nesses tempos também ele não saía na noite de natal para despejar o lixo, costumava ficar a ver a lareira apagar-se aos poucos enquanto a ia mantendo em lume frouxo até de manhã, quando as crianças trementes de excitação não conseguiam ficar na cama e procuravam na lareira, ainda quente, pelo seu sapatinho recheado de uma prenda muito desejada; um sapato não como os dele, sapatos a valer, novos para o dia de natal. Onde estariam os filhos agora? Esfregou com os dedos enrugados e encardidos nos olhos que deixavam cair as lágrimas de meses. ”Por que raio custa tanto nestes dias? Por que raio não me leva a morte que ceifa tantas vidas prazerosas?”
Ouviu passos. Alegrou-se. Talvez houvesse afinal quem se aventurasse na noite fria de dezembro para trazer o lixo. Não. Era somente um polícia na sua ronda. “Pobre polícia” pensou. “Talvez tenha engolido à pressa a posta de bacalhau para ir cumprir o seu dever numa noite em que até os ladrões parecem ter direito à consoada.”  O agente afastou-se sem nem dar por ele, estava realmente frio e ia-se abrigar na esquadra, estava tudo calmo àquela hora. O relógio da torre batia 3 horas da madrugada: Tlim, tlão. Tlim, tlão. Tlim, tlão – também cumpria a sua obrigação.  
Recolheu-se no seu canto agora mais gelado ainda pela sua breve ausência. Irra, não conseguia adormecer de tão gelado. A pele agora mais enrugada ainda, o estômago às golpadas de dor pela ausência de comida, a alma abandonada e triste pelas agruras da vida e da solidão. Nem o gorro preto que enfiava na cabeça  o conseguia aquecer. Tinha, contudo, um desejo de natal: paz.
 - Hora do óbito? – perguntou à médica legista com cara de enfado pelo incómodo de ter de declarar um óbito no dia de natal.
 - 3 horas da madrugada.
 -  Não pode ser passei por aqui na ronda e não estava ninguém, com o frio que estava tê-lo ia recolhido…



sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Delirium

Olhando a pequena face adormecida apercebeu-se da urgência e secretismo com que teria de levar a cabo a sua missão. Não podia levantar suspeitas e também não poderia contar com ninguém, teria de elaborar o plano sozinha, o que não poderia deixar era que fizessem mal ao seu anjo. Francisco respirava profundamente e aligeirou um sorriso – talvez algum sonho bom lhe povoasse a mente inocente; com que sonham os bebés de dois anos? Talvez com algum colo acolhedor, um seio transbordante de leite morno ou quem sabe um sorriso sincero ao qual retribuiu dormindo. Não se cansava de observá-lo e protege - lo por isso ficava acordada grande parte da noite enquanto João, seu marido, dormia profundamente e quase tão inocentemente quanto o filho… não acreditava que o bebé corresse perigo ou pelo menos era o que dizia para acalmá-la, mas a verdade é que tinha trazido os pais lá para casa para ficarem a tomar conta dele – “mais quatro olhos é sempre melhor…” tinha-lhe dito.
Deitou-se. Esgueirou-se para dentro dos finos lençóis sem fazer barulho, o corpo franzino  à procura do calor masculino; mas não adormecia. Magicava formas de levar a cabo os seus intentos sem levantar suspeitas; era difícil porque a casa agora estava sempre cheia de gente, não percebia como podia o marido achar que estava melhor com os sogros, eles na verdade eram parte do problema só que aceitava ser difícil para um filho perceber o quanto os pais são perigosos... também a ela custou acreditar.
Ficou ainda por um largo período de tempo a relembrar a conversa que tinha tido com o seu contacto para  esta missão denominada “anéis de saturno”. Claramente os russos tinham uma implicação, “estavam embrenhados na coisa até aos cabelos” nas palavras dele… mas não acreditava que fossem só os russos; os americanos nestas missões têm sempre a última palavra a dizer… tinha de salvar o seu menino, aliás tinha de salvar a humanidade. Virou-se uma vez mais, não conseguia dormir. As palavras  do homem de óculos escuros, jornal debaixo do braço e cachimbo invadiam-lhe os pensamentos, juntamente com as baforadas do seu cachimbo. Podia sentir agora o intenso cheiro a enxofre que invadia o quarto. Levantou-se de uma penada. Não queria acordar o marido, mas ele estava ali de certeza… o cheiro, aquele cheiro que lhe tornava as inspirações dolorosas não deixava margem para nenhuma dúvida.
Ele ali estava, de pé, encostado ao umbral da porta da sala, inseparável do seu cachimbo, “por que raio nem ali deixava de exalar o maldito fumo?” Pensou. Ainda iria acordar a família. Parecia não se incomodar com questões mesquinhas. “ Tem de ser ainda esta noite, sussurrou. Amanhã será demasiado tarde. “ Mas…” quis continuar, foi interrompida abruptamente : “não pode haver “mas”, sempre que há “mas”, sempre que há a mais pequena hesitação, a mínima dúvida ou um leve gaguejar, a missão aborta, é isso que queres?  “ Não, claro que não” Respondeu. “…tenho de salvar a humanidade, tenho de salvar o meu menino…”. “ Então fazes assim: “вы получаете отсюда немедленно!” Quê? Então agora falava-lhe numa língua desconhecida? Que vinha a ser isto? Enquanto pensava já ele se tinha afastado saindo pelas traseiras deixando-lhe um envelope nas mãos e o cheiro insuportável pela casa.
Era urgente levar a cabo a missão. Abriu o envelope com o coração galopante e viu a foto dos sogros, a prova de que sem sombra de qualquer dúvida se encontravam com o inimigo, já não podia confiar em ninguém e até mesmo o marido estava debaixo de suspeita apesar do seu contacto lhe ter garantido que ele era inocente. Apressou-se. Na pressa pisou o rabo do gato que deu um grito em “gatês” : “ miauuuuu”, cravando-lhe as unhas na cara e fazendo-a inadvertidamente dar um salto. O marido lançou um profundo suspiro e virou-se para o outro lado. Cristela tremeu de medo, mas a imagem da bravura dos seus antepassados fê-la reagir. Tinha de continuar a sua missão tinha de fazer jus ao nome que tinha herdado e dar continuidade à gloria dos seus antepassados. Pegou no bebé que dormia no  berço e aconchegando-o ao colo bem  embrulhado na manta saiu para a noite escura sem olhar mais para trás. Dizia repetidamente que tinha de ser assim; tinha de obedecer e o contacto tinha ordenado que fosse ainda esta noite…
 - Mãe, mãe! Viu a Cristela?
 - Não, filho. Porquê? Que se passa? Levantou-se à pressa enfiando o robe e os chinelos quase tropeçando.
 - Já corri a casa toda, não está, nem ela, nem o Francisco. Ai, mãe! Temo, temo o que possa ter acontecido… não levou nada, acho que foi de pijama e chinelos… nem sei que faça da vida se me fizer mal ao menino. Sentou-se com as mão no rosto desolado enquanto o pai enfiava já umas calças e com os cabelos grisalhos todos desalinhados chamava o 112.
 - Não sei, já disse que não sei, mandem alguém depressa! Sim, e um psiquiatra também com uma injeção que faça dormir, quero é ter sossego durante muito tempo para ver se nos dá algum descanso - desabafou.
Olhavam agora o pequeno berço vazio e uns para os outros, sentindo-se culpados. A culpa é o primeiro sentimento a assolar-nos quando sabemos que se podia ter feito de outra maneira e não se fez. Na consulta a psiquiatra tinha claramente dito que ela não podia ficar sozinha, enquanto a medicação não começasse a surtir efeito não poderia deixar de ficar debaixo de olho nunca. Tinham descurado os conselhos, ela nunca dera problemas até  há pouco tempo atrás quando começou a falar sozinha, por vezes rindo, por vezes gritando, parecendo muitas vezes que respondia a alguém. Depois, repentinamente, começou a desconfiar de todos, até da educadora infantil que vigiava largos minutos depois de deixar o filho na creche. Acabava por chegar tarde ao trabalho tendo cansado o  patrão que a despediu com justa causa pois no testemunho de alguns clientes ela tinha conversas totalmente despropositadas “ …as ligações a  Saturno são o mal da humanidade… vê esta caneta que apanhei aqui? É dele e é a prova de que a energia cósmica anda por aqui… você, você também tem ligações a saturno, não é?…” .
Eram quatro da tarde quando a polícia partiu com dois cães peritos em buscas. Tinha sido difícil convencê-los a procurarem-na antes de vinte e quatro horas passadas, só quando a psiquiatra deu o parecer clínico foi possível ultrapassar esse obstáculo. A família estava inconsolável, acreditavam agora que Cristela com os seus delírios poderia ter provocado algum mal à criança.
Francisco chorava inconsolável no colo da mãe, ela embalava-o enquanto lhe assegurava com voz doce que não deveriam demorar para os virem buscar para um lugar seguro. Deu-lhe o seio que o acalmou por momentos pelo contacto porque o leite há muito tinha secado. O barracão abandonado tinha sido o local escolhido por Cristela para se abrigar, mas o frio intenso que se fazia sentir tomava conta dos dois e ameaçava de morte mãe e filho. Sentiu passos, há muito que o filho não se queixava, sentia-o inerte nos braços e embalava-o desesperada, mas a luz ao fundo e o que lhe pareceram latidos redobraram-lhe a esperança. Ouviu o seu nome e quis dizer: “ sim, sou eu, estou aqui.”, Mas a voz teimava em não se fazer ouvir, as forças abandonavam-na pelos dias que teimara em não comer pois nas suas palavras a sogra envenenava-lhe a comida. “ Não vê que ela me põe tóxicos no pão, na sopa, na fruta? Como quer que eu coma a comida dela?” Abanou o filho agora com mais força, mas nada, ele enregelava e já não deixava sair pela pequena boca rosada nenhum lamento. Temeu o pior. Quis levantar-se e pedir auxílio às vozes e aos latidos que se afastavam mais e mais, mas as pernas fraquejaram e caiu. Um breu intenso abateu-se sobre ela…
João olhava através do vidro da porta o filho que brincava no quarto de hospital. Sorriu. Tinha escapado por pouco. O pequeno corpo estava inerte ao lado do da mãe e ele, com a esperança perdida dos dois dias intensos de buscas, quando os avistou pensou tê-los perdido para sempre. O filho estava agora recuperado e teria alta nesse mesmo dia, quanto a Cristela tinha acabado de vê-la, na visita das quatro, e recuperava bem. Conseguiam agora que comesse depois de lhe tirarem o soro e a deixarem ver preparar a comida. João ganhava nova esperança, a medicação logo, logo faria efeito e desta vez a mulher só sairia do hospital quando os seus delírios passassem.
A enfermeira veio avisar que o horário das visitas tinha acabado. Viu chegar Cristela com os pais, felizmente que a mulher tinha parado com as implicâncias davam-se bem os três. Viu sorrirem-lhe e aproximaram-se. Estavam todos vestidos como se fossem sair, até mesmo Cristela; já teria alta?
- Até amanhã meu querido! Voltamos amanhã. Cristela sorriu-lhe, um sorriso encantador como há muito não tinha.
João confuso viu repentinamente  a sua imagem refletida no vidro e esta atingiu-o como se de um raio se tratasse: estava magro e a barba de dias dava-lhe um ar ainda mais abatido, uma olheiras profundas circundavam os olhos azuis que tinha herdado do pai. Olhou-os e viu os três já de costas saindo pela porta principal. Não compreendeu. Porque não esperavam por ele? Olhou novamente a sua imagem no vidro, olhou o pijama largo dentro do qual balançava um corpo que mais parecia um esqueleto, os chinelos de quarto estavam também bailando nuns pés demasiado pequenos só para lembrar que os pés também emagrecem…

Maria João Varela