quarta-feira, 5 de março de 2014

Dor primordial

Abro a porta e entra em mim toda a dor do mundo… Todos os gritos e ais são meus, todos os prantos de almas torturadas  massacram o que era um corpo, o meu corpo… Sinto mais fortemente a lancinante amargura da existência. Fico quieta e entro, fecho a porta ao mundo e como apazigua o negro que se instala por debaixo dos cobertores!  Apetece-me desprender do mundo; é tudo tão pesado, tudo requer tanto esforço e os pensamentos enovelam-se tornando confuso e estranho esse mundo de que fujo fechando a porta… Há tantas montanhas a escalar, tantas portas para arrombar, tantas lutas vãs e hoje, ah hoje, só me apetece encerrar portas e janelas e entregar-me numa rendição absoluta, deixar que outros cavem a terra e lá plantem as suas sementes… 
 Abri os olhos e senti como se fosse a primeira vez que os abria, como se fosse hoje a primeira vez que me descobria longe do ventre materno, nesse lugar mais doce do mundo, mais acolhedor; o mundo hoje é-me hostil, pesa-me como da primeira vez que me encontrei nele só, hoje cortaram-me o cordão, como mo cortaram num dia já  longínquo quando, sozinha, enfrentei o mundo… Hoje até me pesam os sorrisos, as ajudas, as ternuras, hoje é a dor primordial da existência que impera: retrocedo apavorada; tranco portas e janelas e olho para dentro querendo esquecer os olhares vindos de fora invasores de almas, perscrutadores de seres indefesos que, tal como eu, se debatem na luta intemporal por perseverar… Mas não me tirem este momento, não me atordoem com entreténs modernos cheios de luz e de cor falsas, não me façam esquecer que sou frágil, que sou gente, não me dopem nem me tornem invencível com hedonistas promessas de felicidade eterna, não me chamem o que não sou: uma pedra. Pedra é que não sente quando a pisam, pedra é que todos os dias é pedra, pedra não sente a dor da inexistência futura por nunca ter existido… Oh, que saudades de mim…

Maria João Varela 


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Cebolas podres ou assim assim...

Quem cozinha sabe que uma cebola com uma camada podre bem no centro é a coisa mais irritante que pode encontrar enquanto prepara o jantar; aconteceu-me hoje e senti-me enganada pois a mesma apresentava uma casca exterior sem mácula e mesmo quando a descasquei, à primeira vista, nada faria prever que enquanto eu me esforçava por retirar o que não prestava na esperança de aproveitar alguma coisa ela ia minguando, minguando até me dar por vencida e verificar que não se aproveitava nada… Se isto é irritante com cebolas imagina com pessoas…
Há pessoas que são assim e, por mais que nos esforcemos por encontrar o seu “tesouro” que acreditamos estar bem escondido dentro, bem no âmago, escavamos, escavamos, mas por mais que escavemos só vamos encontrando mais e mais podridão; e não é que até nem possam ter algo que se coma, mas dão tanto trabalho que quando, depois de muito escavarmos lá encontramos o tal “tesouro” reparamos que ele é bem pequenino e sentimo-nos tão irritados e enganados que tal como na cebola só nos apetece deitar tudo fora pelo tempo precioso que nos fizeram perder.
Uma cebola podre é uma cebola podre: olhamo-la e num ápice sabemos que o seu caminho é o caixote do lixo, não nos engana, quando muito se for a última lamentamos a sorte, mas atiramo-la fora na mesma pois nada se pode aproveitar dela; uma que tenha as primeiras camadas putrefactas, mas que contenha no meio uma camada sã vale bem o trabalho de lhe retirar as camadas superficiais e sentimo-nos satisfeitos por ter tido a paciência de a livrar de uma tal capa, mas as que nos enganam com uma capa luzidia e nos fazem ter esperança nelas para nos dececionarem com uma camada intermédia contaminada, tal como as pessoas de mesmo calibre são odiosas e repelentes.
Não sei bem porquê, mas lembrei-me desta metáfora para me referir a  Nuno Abrantes Ferreira cujo discurso que destila veneno me fez ler até ao fim na esperança de lá encontrar o tal “tesouro” que como é óbvio não encontrei senão não estaria a escrever este texto. E li porque me deixei enganar pelas credenciais de professor universitário… “não pode ser” pensei, no final deve ter algum parágrafo que venha contradizer as imbecilidades que diz e fui lendo, lendo coisas como : “Cada um tem o que merece”, “O português quando nasce, nasce sempre para ser grande. Mas por qualquer razão nunca passa de mais um pequenino” ou ainda “ Parece-me uma “lapalissada” que quem é bom chega lá. E quem é menos bom fica com o que há”. Todo o discurso do princípio ao fim revela um desconhecimento tal do que é a natureza humana e do verdadeiro valor motivacional que tem sonhar, já para não falar que o velhinho debate sobre natureza versus cultura já lá vai muito atrás – percebe-se que não saiba porque passou os anos de faculdade nos copos – como o próprio refere no seu livro : “Faz o curso na maior” e que se alguma coisa de produtivo ficou desse debate é a influência imensa que tem a cultura, família, estatuto socioeconómico para aquilo que vimos a ser e não como o mesmo afirma “ os melhores chegam lá”.  
Se de alguma coisa se pode acusar os portugueses não é de sonharem grande, mas bem pelo contrário é de confiarem pouco nas suas capacidades e, pior ainda, acreditarem em imbecis como estes que de certeza hão de destruir os sonhos de muitos só para terem quem lhes passe as camisas, despeje o lixo e faça o pão… E já agora quem disse a este cretino que ninguém sonha em ser padeiro? É que o bem de sonhar é quem nem todos querem o mesmo desta vida. Por mim, dava-me por satisfeita e teria um sonho concretizado se ele fosse despedido e deixasse de contaminar a mente dos seus alunos e a  Faculdade onde leciona e, sei lá, se dedicasse a algo mais condicente com a sua cultura quem sabe a acartar baldes de massa?  

 Maria João Varela


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Praxe - Tradição respeitável ou abuso de poder? (texto de participação no jornal da Faculdade "O claustro")

Sempre, desde que me conheço, questionei o que está instituído e pensava, na minha inocência, antes de entrar na faculdade, que o ensino superior seria  o meu habitat natural, o  local  ideal de debates de ideias entre alunos, pensamento crítico, questionamento das normas e regras em vigor; nada mais ilusório, porém, e apercebi-me disso logo no meu ano de entrada quando na página dedicada aos caloiros “ousei” sugerir uma praxe diferente onde se canalizasse a imensa energia presente para ações úteis para a sociedade – à semelhança daquilo que outras Faculdades  já fazem como ações de voluntariado com recolha de alimentos, por exemplo. Vi com estupefação que, a par de outras esferas da sociedade também na Faculdade as pessoas se refugiam em termos como tradição, regras e normas de uma forma que sempre repudiei e que tem a ver com a falta total de espírito critico. Direi que a forma como o administrador da página resolveu o assunto foi pura e simplesmente retirar o meu comentário - O meu  simples "porquê?" quando me disse não pôr os "seus" caloiros  a fazer isso ( recolha de alimentos) - sem se dignar a responder-me .  Não sou contra tradições, regras ou normas sem as quais a sociedade não teria como se organizar, mas sou contra uma posição  acrítica de quem não questiona, quem não ousa pensar a sociedade onde está inserido por forma a melhorar o que está  incorreto.
Acontece que tenho observado certas práticas que vão contra os valores que me são mais queridos e que, por uma triste infelicidade, vieram a ser discutidos em praça pública com a crescente exaltação de quem defende a praxe como se se tratasse do seu clube de futebol ou religião e com uma argumentação parca e sobejamente denegatória dos factos que todo o bom observador pode constatar quando observa muitas das ditas práticas praxísticas. Contrariamente ao que se possa pensar não sou contra todas as práticas de praxe, embora rejeite liminarmente o código que lhe subjaz  e que acredito, poucos dos que se lhes submetem conhecerão, e rejeito desde logo porque numa sociedade “dita” democrática, práticas, normas, regras – grandemente violentas -  ditadas por quem não é eleito democraticamente, que têm de ser cegamente seguidas sem direito a apelo, onde abundam castigos para os detratores das mesmas, é-me completamente abominável. Para além de me preocupar sobremaneira a aceitação de hierarquias arbitrárias onde quem mais manda é quem tem mais matrículas e não por mérito , em alguma área do saber , reconhecido publicamente... Poderia citar muitos exemplos para ilustrar o meu repúdio , mas escolhi este artigo do código de praxe:
Artigo 103º
As trupes ordinárias, à excepção das trupes de Fitados, poderão levar consigo um caloiro que servirá de “cão de fila” e às quais se aplicam os seguintes preceitos:
a) O caloiro não poderá dirigir-se a alguém mas só apontar;
b) Enquanto a trupe estiver a aplicar uma sanção, o caloiro ficará automaticamente fora dela, podendo ser, entretanto, apanhado por outra trupe;
c) Se a trupe não rapar nenhum “animal” o caloiro “cão de fila” será rapado antes desta se desfazer.
d) Para efeitos do disposto no artigo 94º o caloiro não conta como elemento.
Dizem-me que as pessoas, neste caso os novos alunos –  denominados caloiros ou “bestas” -  têm a liberdade de escolher se querem ou não ser praxados, mas para mim, quando muito são impelidas para um dilema e convenhamos, a não ser que a coragem seja a sua maior virtude, é quase impossível chegar a um lugar sem conhecer ninguém, muitas vezes longe da família pela primeira vez , com necessidade de ser acolhido, querido, passível de ser aceite, numa instituição com o peso brutal das tradições que com tanto orgulho nos dizem ser  centenárias, onde todos à sua volta dizem sim, erguer a trémula voz e dizer um não redundante; mais a mais quando nos fazem crer -  explicita ou implicitamente – que para podermos aceder a toda a vida académica, convívios, festas, teremos que passar primeiro pelo crivo dos “doutores”. Convenhamos, é preciso força hercúlea para se opor a isto, sendo que, logo de seguida, quando entrosado no meio, a pessoa passa a defender a causa que foi coagido a aceitar por não conhecer outra forma de integração. Penso que outras áreas de conhecimento até poderão aceitar o tal argumento da liberdade de escolha, já em psicologia, com os estudos sobre influência maioritária em psicologia social por exemplo, entre outros, será descabido defendê-lo. Assusta-me ainda a ideia de haver jovens com medo, medo de falar, medo de se queixar - Como a Drª Catarina Martins referiu no debate Prós e Contras - com medo de sair à rua e serem praxados, ou direi antes : humilhadas, gozadas, castigadas? 

 “Só  pode falar da praxe quem a vive por dentro” ; “  São brincadeiras e nós divertimo-nos” ; “ Na minha faculdade não é assim, não fazemos estas coisas”… Oiço estas e outras “argumentações” e quanto à primeira defendo precisamente o contrário, ou seja, só quando se está a uma distância significativa - dissociado do grupo -  se pode avaliar um fenómeno imparcialmente, além do mais só quem não cumpre as ditas normas fica a conhecer o peso do castigo, assim como só quem lutava pela liberdade de expressão, pela democracia ,sofria o castigo da PIDE… Quanto ao “argumento” da diversão nada tenho a opor, sou a favor da livre expressão e do direito à livre associação embora tenha sérias reservas e me cause estupefação adultos divertirem-se com linguagem, bastas vezes, imprópria, ofensiva para si próprio e para os outros, com discurso de cariz sexual e escatológico – próprio de idades mais precoces – adotando posições de submissão ou simulando atos sexuais… ad infinitum. Causa-me, ainda, espanto as autoridades tudo permitirem desde barulho pela noite dentro que põe em causa o descanso alheio, num completo desrespeito pela lei do ruído, além de me enojar vomitado por ruas e ruelas, vandalismo variado que observo sobretudo pela altura da queima das fitas quando saio pela manhã, antes de passarem os varredores – os mesmo que não dormiram e que limpam agora o esterco de quem de regras só parece obedecer às da praxe… Sei que muitos estudantes partilham a condenação destes atos, mas sei  por experiência própria que é difícil ser uma voz contrária àquilo que é seguido pela maioria, no máximo vão-nos "às unhas" no mínimo somos postos de parte; e se este mínimo assusta!
Quanto ao terceiro ponto, ainda bem que o próprio presidente da AAC, Ricardo Morgado não  pôs a Universidade de Coimbra de fora daquilo que são práticas correntes e transversais a toda a comunidade estudantil, com raríssimas exceções como tão bem ficou documentado no filme de Bruno Cabral.
Por tudo o que ficou dito atrás  sou por uma outra integração aos novos alunos, onde sejam inseridos através de práticas mais dignificantes da natureza humana, onde sejam ajudados pelos mais velhos a compreender os trâmites da nova vida que acabaram de abarcar com convívio de alto valor cultural como música, teatro, desporto, debates que desenvolvam o espírito crítico  – atividades presentes na AAC e tantas vezes quase desconhecidas. Cabe-nos a todos os que fazem parte da Universidade de Coimbra lutar por isso e até  promover mais debates para tentar perceber por que razão em pleno século XXI, num Portugal que se diz moderno este tipo de práticas - que lembram tempos idos -  tem tanta aderência por parte dos estudantes e tanta complacência por parte do resto da sociedade. 



Maria João Varela 

domingo, 26 de janeiro de 2014

Praxe ou Praxes?

Pensei em escrever um texto cheio de argumentos em desfavor da praxe, mas depois pensei, para quê? Já alguém tentou demover um defensor das touradas de barrancos da barbárie que comete, um fanático religioso da sua crença ou um defensor ferrenho do seu clube futebolístico?  Eu já, mas perco sempre… e perco porque o que legitima a sua ação não são argumentos baseados na razão, mas a emoção: a emoção dos golos marcados pela equipa, e emoção de ver um touro sangrar na arena, a emoção de se saber mártir de uma causa  para depois contar com 72 virgens no céu… contra a emoção não há argumentos de razão… Nestes tempos uma das palavras mais ouvidas é a tradição: “ nas tradições não se mexe…” eh pá, onde é que eu já ouvi isto? O mesmo argumento  servia noutros tempos para legitimar o facto das mulheres não poderem votar, os homens não poderem fazer lides domésticas, abusos de todo o género; arrepia-me e sempre me arrepiou a palavra tradição quando serve para legitimar o mesmo estado de coisas que não admite a razão, tenho-me lixado bem com esta postura, mas é uma necessidade para mim fazê-lo,  é que tenho este vício de gostar de ver as razões por detrás daquilo que faço, mas neste país isto é um crime que se paga caro, tão caro como o pagam os estudantes que se oponham à praxe, vá lá sejam honestos haverá mesmo liberdade de escolha? Não são ostracizados, segregados, minimizados os que se opõem?
Cabe-me fazer bem a distinção entre as praxes, pois não há praxe, mas sim praxes. Há aquelas praxes que são brincadeiras onde não há abusos, onde reina o respeito mútuo, onde os caloiros não são levados a fazer figuras de estúpidos com orelhas de burro – aquele hábito antigo e estúpido, lembram-se das professoras das escolas primárias? É pá é que é mesmo chato ver rapazes e raparigas que até nem são estúpidos ou burros fazerem – note-se, voluntariamente – figura disso; é que digam o que disserem: “ só percebe da praxe quem a viveu”, há todo um conjunto de absurdos que as pessoas veem na rua e há sempre o velho ditado, que por ser velho também é tradição “ Mais vale sê-lo do que parecê-lo; e as pessoas veem figuras de parvo, figuras de javardolas, de mal “educadês” … E antes que me critiquem o neologismo era isso que eu gostava de ver os jovens fazer: criarem coisas novas; é que os palavrões com que se “acarinham” uns aos outros já são muito velhos, tão velhos como as tradições absurdas que tão fervorosamente defendem; mas digo já que só estou a a falar das tradições absurdas, aprecio o que vai ficando de geração em geração impondo-se pela sua validade. Sou completamente a favor da integração ao caloiro: estar numa cidade nova, pela primeira vez sozinho não é nada fácil; só que, não sei porquê, não consigo é fazer a ponte entre acolher, ajudar, integrar e os litros de vinho e cerveja entornados - para dentro e para fora -, gritos de ordem de caloiros masculinos: “ eu a levar no cu não sou uma menina…” ; simulação de atos sexuais; bosta a cobrir o corpo, ad infinitum; mas também reconheço que deve ser uma limitação cognitiva minha.
Os pais estão preocupados, devido ao que se passou no Meco, devido ao facto de serem perigosas as praxes, eu penso que retirando o facto de ter, provavelmente, sido uma praxe que correu mal, os pais descansem porque as praxes no seu geral não são perigosas: são estúpidas, porcas e ridículas  visando o tão valorizado controlo social através do medo: haverá medo maior do que ser desprezado? Gozado? Ridicularizado?  
Também dispenso ouvir – para justificar o injustificável -  falar das amizades que se fazem para a vida, da emoção de um fado cantado num timbre único e emocionante – que adoro – do espírito de interajuda: estou em Coimbra e já conheci gente oriunda de países que nunca imaginei, fiz amigos que considero serem para a vida e vivi e vivo a emoção da minha faculdade fazer parte do Património  da Humanidade; surpresa : não fui praxada…Se compro um pacote de bolachas sortidas sou obrigada a gostar de todas? Mais um vicio tramado meu, só gosto das boas…Urge separar o trigo do joio…
“Isto não é praxe”, “na minha faculdade não é assim”, “ Chamam praxe a atos de desrespeito” É isso mesmo, insurjam-se estudantes de Coimbra, e venham dizer de uma vez por todas então o que é… e escrevam para ficar para a posteridade, para quando forem os vossos filhos a entrar na Faculdade poderem reportar abusos sem serem penalizados e já agora ensinem-lhes depois que as regras se podem sempre questionar e quem sabe quebrar… E sejam sempre os primeiros a condenar os abusos em vez de quererem matar o mensageiro. 

Maria João Varela



sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O meu beijo?

“O meu beijo?” Esticavas os lábios num pedido eloquente tão carente de afeto, tão despojado do falso orgulho que outrora te tornara numa das personagens mais imponentes que tinha conhecido; ademais eras uma figura atemorizadora. Gostavas de arrebatar corações com as tuas paixões que não admitiam oposição e parecias invencível, qual fortaleza que tenha sobrevivido às intempéries dos séculos e sanha destruidora da época moderna. Eras tão sóbrio de espírito com uma clareza de ideias a toda a prova que desmontava argumentos opositores como uma criança desmonta, ao fim do dia, os seus brinquedos de lego. “ O meu beijo?” – repetias agora até que eu te fizesse a vontade e me levantasse pela enésima vez para te acariciar e beijar as faces cujo relampejo durava apenas um segundo para voltar ao embotamento que agora se  te ia colando às pregas fundas de uma pele tanto menos atrativa quanto mais necessitada de beijos. Mantinhas teimosamente a lucidez para nos privares do consolo de te saber inconsciente da tua condição de velho, retiravas-nos essa tranquilidade de consciência para que nos acercássemos de ti para nos poderes pedir o beijo.
Passavas agora os dias a olhar por uma janela aberta para o infinito, num vazio existencial sem finalidade nem propósito que não ver passar as visitas que se aventuravam a testemunhar-te a queda. Muitos não vinham só para não terem de te encarar nas tuas fraquezas como se ao testemunharem-no fossem também eles cúmplices de tamanha injustiça. Não nos ensinam a perder; viver é ganhar, é subir, é crescer, mas é também cair e isso ninguém ensina, ou somos nós que não aprendemos…

 Nunca nos preparamos para este devir, nunca fazemos planos para este tempo em que o tempo deixa de ser parcelado e passa a um continuum onde a única coisa que destoa,  para além do dia e da noite, que quebra a monotonia da paisagem de dias monótonos, iguais entre si, será  a presença de afeto. Quem se prepararia para o inferno? Preparar-se seria já viver  o tédio da espera, de alguém que se lembre da morada de um velho sombrio, quando as luzes de mil atratividades chamam a esquecer esse dia, o nosso dia de pedir o beijo que não vem…

Maria João Varela


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Falidos

Falimos. Esta sociedade está falida porque já não existe a moeda de troca com que nos endrominaram, fazendo acreditar que teríamos justiça e paz, onde não prevaleceria a luta de todos contra todos; só teríamos de abdicar da nossa liberdade herdada à nascença e poderíamos ver desabrochar todo o nosso potencial humano enquanto as injustiças criadas pela própria natureza onde uns nascem mais preparados para se adaptarem do que outros seriam amenizadas. Uma sociedade onde mães de família trabalham de sol a sol para dar de comer aos filhos e mesmo assim têm de ir pedir às instituições de caridade, onde senhoras de 90 anos vêm os filhos – com 50 e mais anos – regressar com os netos e ajeitarem-se como podem num chão frio onde se improvisam uns colchões, onde as crianças vão para a escola com fome comprometendo as suas capacidades cognitivas e o futuro de um país; essa sociedade está falida.
Atiram-nos com números à cara. Números. Para essa gente de gabinete as pessoas são números, como o eram para o regime nazi e para todos os outros regimes cobardes que não têm coragem de encarar a dor cara a cara. Razão tem o escritor António Lobo Antunes quando diz que “essa gente vem de uma incubadora partidária e lá se mantém…” nunca saíram da incubadora e por isso não conhecem a realidade e também não conhecem a História, esta de letra maiúscula que nos conta que todos os regimes que negaram as evidências, fecharam os olhos à realidade estavam já no seu começo do fim… Atiram-nos com os números: desemprego a baixar. À custa de quê? Imigração e pessoas ocupadas duas horas por dia? E pessoas a trabalhar abaixo do ordenado mínimo? Só não sei se concordo com o escritor que num olhar poetizado nos diz serem os portugueses príncipes; serão príncipes ou mártires em causa alheia?
Estamos falidos. Uma pequena minoria da sociedade civil vai aguentando as estruturas de um império em queda, mas sendo uma queda inevitável só estão a dar os cuidados paliativos ao moribundo, que tarda entretanto em falecer e dar origem a uma sociedade mais ética. A ética que não tem a casta que nos governa e que talvez só terá uma outra geração criada com valores diferentes. De que nos valeu o Contrato Social em que abdicámos da liberdade de nos defendermos como dita a natureza? Serviu-nos apenas para entregarmos todo o nosso esforço em mãos caprichosas que não redistribui a riqueza? Então mais vale trazermo-la de volta que ao menos correremos em prados verdejantes até sermos mortos por um qualquer espécime maior ou mais forte do que nós, mas sabemos que a vida é isso mesmo a luta do mais forte. Agora a injustiça mascarada?

Numa coisa junto-me a Lobo Antunes: na injustiça que está a ser feita, onde os espécimes da pior raça estão a empanturrar-se enquanto veem os seus próximos enlameados e caídos pedindo uma esmola… estamos mesmo falidos, só ainda não pedimos foi a insolvência…

Maria João Varela


sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Aventuras num hospital psiquiátrico

As paredes do hospital eram de um branco encardido e o cheiro, embora ali não houvesse feridas para desinfetar, era o característico dos hospitais como se o cheiro do sofrimento, fosse ele qual fosse, emprestasse às enfermarias independentemente da especialidade de pertença o mesmo cheiro antissético , o mesmo que embora fosse desnecessário poderia afastar o cheiro a calor humano, precioso, se existisse. O pijama largo e às riscas finas, azuladas era igual ao dos outros pacientes, farda imprescindível dos loucos e atrasados que conheciam o seu lugar e permaneciam cada qual com o seu distúrbio unidos num qualquer laço de familiaridade e não se percebendo bem porquê unidos contra o pessoal que prestava os (in)devidos cuidados de saúde; não tinha importância, contudo, se era bonita ou feia a indumentária, o aspeto físico há muito tinha perdido o interesse e enquanto me arrastava para o gabinete do psiquiatra, passos ainda cambaleantes, pensava já na forma de escapar daquele lugar o mais rapidamente possível. Era verdade que ainda nos cuidados intensivos tinha acedido ao pedido de me deixar internar na psiquiatria, muito por culpa dos tratos carinhosos que lá me tinham sido facultados, mas agora que me encontrava lá, junto com toda a panóplia de doenças mentais imaginárias, sabia que corria sérios riscos de ficar pior do que à entrada. Mais a mais quando me começaram a medicar sem ainda deixar de estar  intoxicada pela quantidade astronómica de barbitúricos que tinha ingerido para pôr fim a uma vida que se tornava de um cinzento insuportável, onde a graça e as cores já não existiam mais… A  enfermeira de serviço irritada  perante a minha resistência à tomada dos mesmos: “ então agora não gosta de comprimidos? Está muito esquisita para quem acabou de tomar uma dose extra.” Claro que ainda não tinha o crítico interno a funcionar bem e tratei-a mal com uma réstia das forças que me tinham sobrado da luta de meses contra uma depressão galopante. Fui acusada de não cooperar e o doutor que tão prontamente me tinha receitado as pílulas cujas cores garridas causam a dependência, muito por culpa da aparência lúdica que têm, achou por bem tentar trazer-se à razão pelo que me fiz ao gabinete pronta a confrontá-lo. Mostrou-se fino nos tratos e quase me convencia da superior vantagem que seria para mim naquele momento tomá-los, ainda turva das ideias do louco desvario que tinha tentado cometer, mas fingi ouvi-lo pois a lucidez começava a surgir e achei por bem aquiescer até porque a matrafona da enfermeira me tinha ameaçado forçar a toma dos mesmos com o recurso a camisa de forças, se preciso fosse, como se vê nos filmes: “é que vai à força se for preciso!” Vingou a minha rebeldia e intimamente até me divertia quando uma semana mais tarde diziam aos meus familiares poderem deixar-me sair, se assinassem um termo de responsabilidade, pois os antidepressivos, os mesmo que eu fingia tomar enquanto a matrafona me olhava pelo canto do olho para os despejar de seguida pela sanita abaixo, estavam a fazer efeito e eu estava a melhorar a olhos vistos.

Maria João Varela

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Que seria do amor?

Já passava da hora. A hora habitual quando te despedias em bicos de pés e com um afago nos meus cabelos largavas os lençóis que deixavas sem remorsos abandonados e frios, sombrios e sem as formas sedutoras com que os enformavas a eles. Tardavas. E eu perguntava por que haverias tu de te prolongar na tortura da despedida prolongando desse jeito o meu desespero também. Por que contam as horas para os amantes? O amor não tem hora. O amor apega-se à pele, entranha-se na carne e já não sai, nem à força das badaladas do sino da igreja que ciumento deixa as horas passarem mais depressa… Deixavas-me entregue aos mesmos desvarios, também eu só e abandonada. “Voltará?” Pensava eu. E os lençóis pareciam gemer com a dor da tua falta… caía-me uma lágrima. Tardavas. Eu enroscava-me um pouco mais saboreando de avanço a dor da partida na hora em que o amor parece mais forte pela força emprestada pela saudade… Respiravas fundo, dormirias embalado pelos momentos de amor vivido, num prolongamento sonhado? Ter-te-ias esquecido das horas? As horas, essas mesmas que tanto amor roubam aos amantes deixando um doce rasto de “já vivido”, uma doce e suave lembrança nas bocas sedentas de mais e mais prazer.   O amor não tem hora, nem idade, não cabe em cronologias humanas; é o castigo que os deuses dão encurtando a vida, acelerando as horas ao ritmo dos corações. Imaginava-te levantando-te, nu, trocando os lençóis pelas calças que ganhavam vida começando a andar… andar para longe. Por que razão sorrias agora? Olhava-te no teu enlevo e não queria mais nada, somente que não passassem as horas, as mesmas que apesar disso teimavam em acelerar. Tardava. Amanhecia quase, como era possível que te tivesses esquecido delas? Das mesmas que te roubavam de mim? Sabe-se que há amor quando as horas correm em vez de passarem no seu leve balançar. Chamei-te: “ amor, amor, são horas.” Nada. Só um suspiro mais profundo e mandaste as mesmas às urtigas. Agora mais forte: “amor, não te atrases” como se o amor se cingisse ao tempo, logo ele que é intemporal… “Hã? Ah, não te disse! Eu não vou, aliás, não vou mais…” Assim, sem mais. Acabavas-me com a promessa de um despertar agridoce, em que já eras só uma lembrança, em que o amor perdurava nos sentidos da memória e avolumava-se na tua ausência. E agora? Calavam-se as badaladas  do relógio que se sentia vingado podendo reduzir a marcha ao saber-te meu, sem outros entraves. Deixáramos de ser amantes sequiosos, os dias poderiam agora ser mais lentos,  seguir o ritmo habitual; fora-se a urgência, mas assim  sem despedidas nem cama vazia, sem o choro dos lençóis  sem o peso da partida, sem saudade, sem a minha lágrima, que seria do amor?   

Maria João Varela

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A conquista do ponto "G"

Ao homem foi dado desbravar continentes e vencer tempestades conquistando impérios ao dominar os oceanos, passou o cabo das tormentas para chegar a terra firme;  matou, esventrou e foi dono e senhor dos impérios conquistados a golpe de afiadas espadas; a mulher conquistou o ponto G e foi essa a sua maior conquista. Claro que ao ser conhecedora de que o criador não a tinha castrado, como acreditava Freud, que não era desmerecedora dos prazeres carnais e que não era por isso mesmo responsável pela queda e expulsão do paraíso, imbuída dessa confiança partiu para outras conquistas… ora o homem não gostou. Para além das conquistas que lhe eram asseguradas bastando desembainhar a espada, teria agora de conquistar o cume das conquistas femininas pois esta tinha ido à lua e já não se contentava com algum macho incapaz de lhe aflorar a bandeira.
Pode parecer redutora a teoria da conquista feminina ser o dito ponto “G” que tantos detratores se negam a aceitar, mas não: é que saber-se digna do maior prazer à face da terra - concupiscente é certo -  levou a mulher a acreditar ser digna de todas as outras coisas também; senão por que razão haveria o criador de a prendar com um tal éden não fora a intenção de lhe suavizar o caminho rumo a conquistas mais modestas, mas mais duras? Não é à toa que em todas as sociedades onde a revolução sexual não entrou as mulheres se sintam indignas de conquistar outros terrenos pois sentindo-se menos capazes que o homem nesse âmbito, sentem-no nos outros também, nem é tampouco inócuo o facto dessas mesmas sociedades lhes negarem tal direito com casamentos arranjados, violações, excisões e outras barbaridades. Não se minimize pois a conquista o ponto “G” pois enquanto o homem andava em sangrentas batalhas a mulher, sabe-se lá por que meios, foi conquistando e conhecendo o seu corpo por tantos séculos conspurcado e defraudado acusado de ser o templo do pecado, o homem fazia por isso pois tremia de terror que a mulher ao se conquistar a si mesma, ao saber que não  veio a existir só para  parir com dor como tão biblicamente lhe apregoavam as escrituras, fosse conquistando os terrenos que eram seus pela força.
A mulher veio a conquistar, não pela força, nem pela espada, mas pela inteligência e confiança que lhe era dada pela ida à lua onde deixou a bandeira e onde só um homem verdadeiramente corajoso se atreveria na travessia, que é feita a dois, mas que no final premeia também quem se arriscou. Ganharam os dois nessa conquista feminina: a mulher porque se soube capaz de outras paradas, o homem porque soube que a mulher não lhe quer roubar nada, apenas tão e só o que é seu por direito, ou seja, tudo…






Maria João Varela

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Maneirismos

Víamo-la chegar e acomodar-se no seu canto, o seu canto há mais de trinta anos. Pelo canto do olho apreciávamos os mesmos maneirismos, o mesmo tom afetado de voz, agora um pouco mais rouca, é certo, mas reconhecíamos-lhe todas as tonalidades; continuava um génio, em decadência, mas um génio. As mãos displásicas e o queixo caído – não de espanto, mas de nascença – seguravam um eterno cigarro aceso que umas vezes fumava outras não, reconhecíamos-lhe o encanto na decadência. Era certo que o vestido encarnado aos quadrados pretos e brancos não lhe assentava como outrora, nas noites a fio que passava a defender ideias progressistas e ideais impossíveis de concretizar, exceto na sua mente prodigiosa de jornalista, mas dava-lhe um ar de inconformismo acentuado pela leveza com que declinava a oferta do garçon quando já lhe adivinhava os desejos: “ Uma Margarita, senhora?” Odiava ser previsível por isso logo se apressava em pedir outra coisa que rapidamente lhe passasse na ideia. Adorava a bajulação, sorria disfarçando perceber o cheiro a  falso quando a cumprimentavam os cavalheiros de ego destruído nos artigos cáusticos feministas das suas crónicas semanais; eram preferíveis, contudo, aos cochichos das senhoras bem casadas… claro que ela nunca casou, dispensava atilhos desses e ia-se aconchegando como podia nunca lhe faltando macho – algum corajoso – principalmente nos frios invernos parisienses.
Era um pouco triste, vê-la agora, tantas vezes a falar sozinha, ou quem sabe para algum fã invisível mais persistente, enquanto se via o ar descuidado com que tinha calçado as meias de vidro onde dantes não se lhes vislumbrava um vinco. « Merrrci, mon chérrrri», vincava os “r”(s) mais que o necessário para vincar uma personalidade única onde uns cabelos negros e curtos marcavam a rebeldia de uma juventude boémia e ativista e quando se levantava cansada do seu canto onde tinha deixado a frescura perdida caminhava encurvada pelos anos de luta, mas não perdia os maneirismos com os quais segurava o cigarro, sempre aceso para lembrar que a alma, essa não se curvaria nunca…

Maria João Varela