quarta-feira, 16 de abril de 2014

Lambe botas ou chinelos

Ar pimpão, pequena corcunda devida ao esforço de anos e anos de vénias chega apressado quase fazendo saltar as banhas de umas calças de terylene;  é sempre, há mais de 40 anos,  o primeiro a fazer rodar a chave na fechadura para quando o doutor chegar já o encontrar no seu cubículo a que orgulhosamente chama escritório. Não se lhe conhece outros interesses se não viver de língua esticada, húmida e sempre a postos para lamber as botas ao patrão; e mesmo quando este traz sapatos lambe-os de igual modo que lambedor que se preze não discrimina calçado.
 Comprou mesmo umas joelheiras porque com o passar da idade, ajoelhar e lamber botas tornou-se doloroso para as desgraçadas rótulas que de tanto roçarem o asfalto já levam umas contusões que não são de desprezar e, então, quando vê o “dono” ao longe, tira-as disfarçadamente do bolso e protege-se com elas. Já a língua não tem tanta sorte e, de tanto lamber, porquanto não haja para ela resguardo, começam-lhe a aparecer umas fístulas. Tem futuro. Este espécime muito apreciado lambe à esquerda e à direita, segundas, terças e sextas, não se cansa de lamber e mesmo ao fim de semana, extremoso e cumpridor sem dar sossego à língua, ignorando os lamentos e uivos de dor dá, se a isso for chamado, lambidelas demoradas nas botas de algum superior.
Passou-lhe pela ideia ganhar uns trocos a mais e abriu um curso para ensinar os truques e manhas que os anos de serviço que leva de lambedor bem lhe atestam a valência. Começaram aos jorros as candidaturas e após poucas semanas pululavam já os acessórios, organizados num kit, com que se faz acompanhar um verdadeiro lambe botas   : as famosas joelheiras – de várias cores que também há muitas mulheres a fazer o curso – uma escovinha de tirar a caspa do casaco dos superiores, um dicionário de bolso com milhares de bajulações para cada estação, um repressor de opinião própria, um artefacto interessante que solta um bip de cada vez que o lambedor se lembra de opinar; lambedor profissional não tem opinião, papagueia a do patrão…

O sucesso foi tal que mais do que o francês, o inglês, o alemão ou o mandarim tornou-se desígnio nacional ser um bom lambedor. Os lambedores são já tantos que em pouco tempo houve a necessidade de hierarquizar o curso havendo lambedores de chinelos, pantufas, sapatos de camurça ou pele verdadeira e finalizando então nas botas, com vários níveis  também de modo que quem chegue  ao topo – embora com a língua toda lixada, as rótulas esgaçadas e a corcunda proeminente – é certo e direitinho ter o seu futuro assegurado.

Maria João Varela



segunda-feira, 14 de abril de 2014

Despedimento por extinção de posto de trabalho

Passos Coelho, vimos por este meio despedi-lo por extinção de posto de trabalho, devo dizer-lhe que ponderámos muito bem antes de o escolher a si, mas como verá pela argumentação que segue verificará que é você o elemento menos útil para levar a cabo as medidas essenciais necessárias para pôr cobro ao descalabro do país. Abdicámos propositadamente do ex.º porque como já o consideramos despedido não passa de um cidadão comum e como tal terá, quando muito, direito a um senhor antes do nome, e olhe lá; é que senhor é outra coisa…
A extinção do posto de trabalho que ocupa deve-se a razões de vária ordem que passamos a citar:
 1ª  A onerosidade do cargo que ocupa é desproporcionalmente elevada para os resultados desastrosos – comprovados pela avaliação feita por entidades exteriores – que tem atingido, nomeadamente, por ter num tempo recorde de perto de três anos destruído o que a outros governos levaria, se não dois mandatos, pelo menos um completo, nós,  Zé Povão -  sim fartámo-nos de ser Zé povinho – conseguimos para ocupar o seu cargo alguém  muito mais capacitado e a metade do preço. É que decidimos mesmo extinguir, além do cargo a própria profissão. Deixará, a partir de hoje, de existir políticos pois chegámos à conclusão depois de anos e anos a ouvir as mesmas mentiras que o que era uma mais valia – a arte de mentir bem – já não o é , e hoje, as suas mentiras e as dos seus colegas de profissão, são iguais às de tantos outros comuns mentirosos que são apanhados mais depressa do que um coxo e como o que não falta em Portugal são mentirosos e coxos, pelo sim pelo não, vamos agora dar lugar aos coxos para ver se sempre é verdade o que diz o ditado.
2ª Escolhemos também exonera-lo pelas habilitações académicas não serem as mais fiáveis, então o senhor tirou uma licenciatura aos 37 anos e não se lhe conhece nenhuma outra ocupação sem ser partidária?? Ai, ai, ai cheira-nos a esturro daquele bem esturradinho e depois, tá a ver? Na Lusíada? Faz lembrar Lusofona, Opá! Cheira- nos a baldas e como estamos fartinhos deles – e você próprio criticou  as novas oportunidades pelo pouco rigor, decidimos acabar com as novas e com as velhas oportunidades também. Sendo dos menos qualificados terá de esperar a sua vez, É que temos milhares de portugueses mais qualificados à espera, tanto dentro como fora do país, pelo que pode facilmente aferir da legitimidade da escolha que tivemos de fazer; pese embora a dificuldade que tivemos por, apesar de tudo, ser chefe de família com encargos, mas deixe lá pode sempre contar com a Deco se se vir na impossibilidade de cumprir com as suas obrigações, esperamos não retirar o sorriso eterno da “boquinha” da sua santa esposa.
3ª  Sendo um critério a pesar, no caso de despedimento por extinção de posto de trabalho,  a experiência na função, temos a assinalar estarmos muito arrependidos de ter dado a oportunidade a alguém com tão pouca experiência, uma pessoa – ou um povo – quer ser bonzinho por compaixão e amor ao próximo e mal acorda dá-se com a notícia que o senhor vende Portugal às tiras – agora  uma tira lá para Melgaço e amanhã? Aos espanhóis senhor ex- primeiro ministro? Esqueceu-se das inimizades figadais que nos unem?
Penso serem motivos mais do que suficientes para se pôr na alheta, que é como quem diz, pisgar-se, escapulir-se e mesmo que ache que não, vai na mesma porque foi você mesmo que aprovou a lei da flexibilidade laboral, foi ou não foi?
Assinado: Zé Povão



sábado, 12 de abril de 2014

Voracidade

Dorme! Dorme nesse sono acordado; deixa-te embalar pelas melodias melífluas de palavras encantatórias que saem das bocas vorazes que te engolirão ao teu primeiro suspiro. Dorme, enquanto o inimigo te faz uma cama de seda perfumada, embrenha-te nessa sedução ciente que acordarás do sonho e que te darás conta que mais não és do que o alimento dessa máquina insaciável. Se olhares para trás verás a quantos lhes foi extraída a alma, a quantos lhes foi sugada meia vida – ficando só a outra meia para manter acesa a chama da fornalha que alimenta o motor do crescimento. Carne humana, seiva de vida, extrato de essência expugnado. És tu simplesmente isso? Não és então dono e senhor da tua vida, acobardas-te?
Acorda! Ainda dorme em ti a força e coragem de seres tu mesmo! Não te deixes embalar nas palavras proferidas por aqueles para quem nada mais és do que produto para combustão… Olha-lhes para as bocarras; vês como de cada bafo seu saem odores de outras mortes, daqueles que ainda arrastam os pés para lhes dar o alimento que nunca os saciarão?
Foge dessa máquina desumanizadora; foge dessa engrenagem ferrugenta que só destrói, que só mata, aos poucos como convém: esmagando os ossos, quebrando a força, arrancando aos solavancos as lágrimas de ácido que corrói a estrutura que há de desabar, não se sabe bem quando nem como.
Olha bem em volta e diz-me, que vês? Acaso te passam despercebidos os gritos por socorro? Acaso gritas também surdamente para tu próprio não te ouvires? Vês futuro algum ou só umas quantas bocas ávidas por cujos lábios escorrem fios de sangue de vítimas inocentes? Olha bem para ti. Assim te defines ou deixas definir, somente como mais uma peça na engrenagem como te murmuraram esses lábios por onde saem palavras enganosas, palavras febris que aguardam que te aproximes e deixes engolir?
Se não há outro futuro aqui que não este, está na hora de construir outro, de fazer parar a engrenagem… por que esperas? Acaso aguardas ainda que das bocarras saiam restos de alimento para te confortar os dias; acaso vives bem ao saber que te alimentas dos teus companheiros de jornada?   


Maria João Varela


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Histórias da fome

Olhou para ambos, dormiam agora aconchegados pela sopa quente que tinha conseguido pôr-lhes na mesa. Bernardo de 5 anos ainda perguntara : “ E tu por que não comes mãe?” “ A mãe comeu antes de chegar a casa, não tem fome…” mas o estômago doía-lhe, quase tanto quanto a alma, impedia-se, no entanto, de dar parte de fraca com medo que os filhos pressentissem como se sentia. João, dormia também com os caracóis louros espalhados no travesseiro, a pele rosada dos seus 12 anos enregelava,  Joana aproximou-se e cobriu o pequeno braço que se encontrava destapado e que arrefecia devido à noite gélida e à falta de aquecimento. Tinha fome, durante todo o dia só tinha comido um caldo verde que a colega de escritório lhe tinha pago quase sem ela dar por isso para que não se sentisse mal com o gesto “Depois pagas tu” – dissera-lhe a sorrir, mas Joana tinha percebido a compaixão no seu olhar.
Quando a respiração dos seus dois anjinhos se notava já mais profunda colocou as mãos  entre o rosto e chorou, chorou… chorou como ainda não tinha tido coragem de chorar, como se o choro, visto assim sob a luz baça do candeeiro  tornasse real o sofrimento, como se testemunhasse a crueza da sua situação e se consubstanciasse por fim. Hoje, no trabalho, algumas vezes se sentiu quase a desmaiar, o patrão tinha notado e tinha dito que se assim continuasse tinha de a despedir: eram as faltas de atenção, era a produção baixa, era a antipatia; ou mudava rapidamente ou iria para o olho da rua, dissera-lhe.
 Levantou-se. Decidiu-se, por fim… Abriu o computador e começou a escrever um parágrafo: «Boa noite. Encontro-me numa situação muito difícil. Sou empregada de escritório, divorciada, tenho dois filhos menores. Para fazer face a todas as despesas (de água, luz, habitação) resta-me muito pouco para a alimentação. Gostaria de saber quais as condições necessárias para receber ajuda alimentar. Estamos a passar fome e precisamos da vossa colaboração.» 
Enquanto escrevia as lágrimas caiam molhando o teclado. Lembrava-se que há um ano atrás seria impossível prever tal desfecho. O marido tinha ficado desempregado e, sob o peso da responsabilidade tinha preferido livrar-se deles e pedido o divórcio deixando-os com a prestação da casa e do carro – que entretanto tinha entregue – sem nunca mais lhe ter dado a mais pequena ajuda. A mãe ajudou enquanto pôde, mas também ela, doente terminal tinha gasto todas as economias nos tratamentos até que, quando os deixou, ainda lhe dissera: “ Pede ajuda, filha. Não tenhas vergonha, essa, que a tenham aqueles que se consolam com o que nos roubaram…” Morrera amargurada ao ver a situação da filha e dos netos, Joana desconfiava mesmo que o cancro de uma progressão fulminante tinha sido causado por toda aquela situação, ou quem sabe para a livrar de tanto sofrimento?
Fechava já a tampa do computador quando viu que tinha um email, correu a abrir. Era a resposta! Nem queria acreditar, tão rápido, tão solícito! Podia ir de manhã buscar o pequeno almoço das crianças, depois se veria.
Deitou-se e a fome, agora, esbatia-se um pouco na esperança, a esperança de um novo dia em que finalmente seguindo o conselho da mãe deixara de ter vergonha e iria, como tantos antes dela tinham ido, pedir uma ajuda que noutros tempos achara ser para quem não pode ou não quer trabalhar… Mas ela trabalhava. Enxugou uma vez mais as lágrimas que corriam agora umas atrás das outras, perdido o medo das lágrimas e a vergonha da fome.
De manhã, bem cedo, antes das crianças acordarem já se encontrava na fila para ir buscar o leite e o pão prometidos na véspera através de um email e viu, olhou e não quis acreditar: lá estava a sua vizinha do 5º andar direito, a filha do Sr. António, o enfermeiro do centro de saúde, a dona da sapataria; todos conhecidos seus, que há pouco tempo atrás tomavam o pequeno almoço na mesma pastelaria – cujo dono na falta de clientes fechara e, também se encontrava na fila à espera de caridade… “ Não se envergonhem que nós não somos pobres, fomos foi roubados”…

Maria João Varela



quinta-feira, 10 de abril de 2014

Resistência à aculturação

Lembro-me de subir umas escadas larguíssimas, em mármore, depois de passar por um átrio amplo com um teto tão alto que não se adivinhava um fim, de haver um corrimão tão largo, também ele em pedra gasta pelo tempo, onde era costume, longe da vista das funcionárias, escorregarmos e partirmos um ou outro osso mais frágil, ou amolgar a armação dos óculos – para os pouco afortunados que os usavam- ; sim porque usar óculos nessa altura era uma pouca sorte só comparável ao que é hoje não ter um tablet…
O colégio da Casa Pia de Lisboa secção de S.ta Clara ficava, e fica ainda, penso eu,   junto ao Panteão Nacional para onde me pisgava, às vezes, para ir ler para a biblioteca, quando faltava às aulas por nunca ter gostado que me impusessem aquilo que deveria estudar; quem sabe aí me inspirassem as almas já partidas a trilhar um caminho só meu… quem sabe me sussurrassem, sem que eu ainda soubesse, que do outro lado é que nos costumamos arrepender de não termos sido verdadeiramente livres e que só isso conta; não sei, talvez fosse isso que me desse força para subir aquelas escadas, apinhadas de alunos, nas horas em que chegavam, pela manhã, num borbulhar humano inigualável, e começavam a desaparecer, aos poucos, pelas salas de aulas cujas portas se iam fechando dando início a mais um dia de aprendizagens.
Lembro-me de entrar, também eu, na sala de aulas cujos bancos compridos de madeira de mogno se encontravam já pejados de crianças enfileiradas e aprumadas e de, ao fundo, observar a professora de música, uma mulher raquítica de nariz curvilíneo e um pé tão grande como jamais voltei a ver na vida… o enorme pé balançava ao compasso da música que se começava a ouvir,  aumentando em muito o seu tamanho, numa ilusão de ótica que tem a ver com o hipnotismo da cena que em tudo lembra os romances infantis onde as bruxas mais terríveis habitam e, talvez por tantos desses romances ter lido, me pareça agora,  com a longa distância que vai do acontecimento à lembrança, cujas contingências de tempo não podem ser negligenciadas,  não ser ela tão má como me parecia à altura. Lembro-a assim muito por culpa dos imensos castigos que me esperavam – a crer nos testemunhos horrorizados dos colegas que assistiam a cena- que, segundo creio, a mesma nunca se imaginou a infligi-los simplesmente por nunca se ter dado ao trabalho de observar  comportamento tão pouco provável ; é  que ao som do hino nacional, quando a música enchia o espaço com a sua melodia que inspirava o patriotismo, aquela hora em que todos sabiam o que fazer: levantar-se e com o ar orgulhoso de pertencer à Pátria Mãe – ou somente porque todos faziam o mesmo – cantar a plenos pulmões  “ Contra os canhões, marchar, marchar…” , só eu me mantinha sentada e de boca teimosamente calada…
É esta a primeira experiência que me lembro de desobediência, de não ajustamento, de não integração. Muitas outras se foram seguindo, ao longo dos anos. O temido castigo nunca se seguiu à infração, pelo menos nesta altura não, mas sempre me mantive na disposição de arcar com as consequências de tamanho ato de insubordinação.

Maria João Varela



sábado, 5 de abril de 2014

Somos

Somos lama, terra,
somos lágrimas de solidão,
somos poema de inverno
suspiro de poeta,
folha caída no chão.

Temos troncos, temos folhas,
temos raízes que nos prendem ao chão
somos lagos quietos,
brisa de primavera,
somos imensidão.

Somos finitos
temos lamurias e gemidos
gritos presos na garganta,
Ah, mas temos asas
voamos, sonhamos...
somos gente
quente paixão,
somos assim, assim...

somos tudo,
somos nada,
tropeçamos e caímos,
mas levantando-nos sorrimos
continuando a caminhada...


Maria João Varela

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Terra Mãe

Dói-me ver como sacam as entranhas da terra, como lhe extraem o sangue, a seiva… Dói- me a ganância, o olhar estreitado de quem põe ao bolso sementes com medo que outro lhe colha os frutos… Dói-me tanto!
A nossa terra é tão bonita, azul, redonda, viva. Matam-na!
Matam-na homens e mulheres de mau íntimo, por egoísmo, ignorância; sei lá!
E nós, por que deixamos? 
Por que fechamos os olhos ao ódio? Ignorância, traição, vingança?
Por que deixamos que  esventrem a nossa mãe? Que lhe acabem com os peixes, as aves, o verde encanto dos pinheiros?
Por que abandonamos quem nos deu vida, terra fértil prenhe de vida? Ela chora e grita por nós…
Por que queremos grandezas, insígnias e glórias? Por que escolhemos a usurpação, quando ela nos dá o pão?
Até quando, mãe; até quando?
Até quando te arrancarão gritos de dor e lágrimas de pranto?

Até quando te abandonaremos à solidão?

Maria João Varela

quarta-feira, 5 de março de 2014

Dor primordial

Abro a porta e entra em mim toda a dor do mundo… Todos os gritos e ais são meus, todos os prantos de almas torturadas  massacram o que era um corpo, o meu corpo… Sinto mais fortemente a lancinante amargura da existência. Fico quieta e entro, fecho a porta ao mundo e como apazigua o negro que se instala por debaixo dos cobertores!  Apetece-me desprender do mundo; é tudo tão pesado, tudo requer tanto esforço e os pensamentos enovelam-se tornando confuso e estranho esse mundo de que fujo fechando a porta… Há tantas montanhas a escalar, tantas portas para arrombar, tantas lutas vãs e hoje, ah hoje, só me apetece encerrar portas e janelas e entregar-me numa rendição absoluta, deixar que outros cavem a terra e lá plantem as suas sementes… 
 Abri os olhos e senti como se fosse a primeira vez que os abria, como se fosse hoje a primeira vez que me descobria longe do ventre materno, nesse lugar mais doce do mundo, mais acolhedor; o mundo hoje é-me hostil, pesa-me como da primeira vez que me encontrei nele só, hoje cortaram-me o cordão, como mo cortaram num dia já  longínquo quando, sozinha, enfrentei o mundo… Hoje até me pesam os sorrisos, as ajudas, as ternuras, hoje é a dor primordial da existência que impera: retrocedo apavorada; tranco portas e janelas e olho para dentro querendo esquecer os olhares vindos de fora invasores de almas, perscrutadores de seres indefesos que, tal como eu, se debatem na luta intemporal por perseverar… Mas não me tirem este momento, não me atordoem com entreténs modernos cheios de luz e de cor falsas, não me façam esquecer que sou frágil, que sou gente, não me dopem nem me tornem invencível com hedonistas promessas de felicidade eterna, não me chamem o que não sou: uma pedra. Pedra é que não sente quando a pisam, pedra é que todos os dias é pedra, pedra não sente a dor da inexistência futura por nunca ter existido… Oh, que saudades de mim…

Maria João Varela 


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Cebolas podres ou assim assim...

Quem cozinha sabe que uma cebola com uma camada podre bem no centro é a coisa mais irritante que pode encontrar enquanto prepara o jantar; aconteceu-me hoje e senti-me enganada pois a mesma apresentava uma casca exterior sem mácula e mesmo quando a descasquei, à primeira vista, nada faria prever que enquanto eu me esforçava por retirar o que não prestava na esperança de aproveitar alguma coisa ela ia minguando, minguando até me dar por vencida e verificar que não se aproveitava nada… Se isto é irritante com cebolas imagina com pessoas…
Há pessoas que são assim e, por mais que nos esforcemos por encontrar o seu “tesouro” que acreditamos estar bem escondido dentro, bem no âmago, escavamos, escavamos, mas por mais que escavemos só vamos encontrando mais e mais podridão; e não é que até nem possam ter algo que se coma, mas dão tanto trabalho que quando, depois de muito escavarmos lá encontramos o tal “tesouro” reparamos que ele é bem pequenino e sentimo-nos tão irritados e enganados que tal como na cebola só nos apetece deitar tudo fora pelo tempo precioso que nos fizeram perder.
Uma cebola podre é uma cebola podre: olhamo-la e num ápice sabemos que o seu caminho é o caixote do lixo, não nos engana, quando muito se for a última lamentamos a sorte, mas atiramo-la fora na mesma pois nada se pode aproveitar dela; uma que tenha as primeiras camadas putrefactas, mas que contenha no meio uma camada sã vale bem o trabalho de lhe retirar as camadas superficiais e sentimo-nos satisfeitos por ter tido a paciência de a livrar de uma tal capa, mas as que nos enganam com uma capa luzidia e nos fazem ter esperança nelas para nos dececionarem com uma camada intermédia contaminada, tal como as pessoas de mesmo calibre são odiosas e repelentes.
Não sei bem porquê, mas lembrei-me desta metáfora para me referir a  Nuno Abrantes Ferreira cujo discurso que destila veneno me fez ler até ao fim na esperança de lá encontrar o tal “tesouro” que como é óbvio não encontrei senão não estaria a escrever este texto. E li porque me deixei enganar pelas credenciais de professor universitário… “não pode ser” pensei, no final deve ter algum parágrafo que venha contradizer as imbecilidades que diz e fui lendo, lendo coisas como : “Cada um tem o que merece”, “O português quando nasce, nasce sempre para ser grande. Mas por qualquer razão nunca passa de mais um pequenino” ou ainda “ Parece-me uma “lapalissada” que quem é bom chega lá. E quem é menos bom fica com o que há”. Todo o discurso do princípio ao fim revela um desconhecimento tal do que é a natureza humana e do verdadeiro valor motivacional que tem sonhar, já para não falar que o velhinho debate sobre natureza versus cultura já lá vai muito atrás – percebe-se que não saiba porque passou os anos de faculdade nos copos – como o próprio refere no seu livro : “Faz o curso na maior” e que se alguma coisa de produtivo ficou desse debate é a influência imensa que tem a cultura, família, estatuto socioeconómico para aquilo que vimos a ser e não como o mesmo afirma “ os melhores chegam lá”.  
Se de alguma coisa se pode acusar os portugueses não é de sonharem grande, mas bem pelo contrário é de confiarem pouco nas suas capacidades e, pior ainda, acreditarem em imbecis como estes que de certeza hão de destruir os sonhos de muitos só para terem quem lhes passe as camisas, despeje o lixo e faça o pão… E já agora quem disse a este cretino que ninguém sonha em ser padeiro? É que o bem de sonhar é quem nem todos querem o mesmo desta vida. Por mim, dava-me por satisfeita e teria um sonho concretizado se ele fosse despedido e deixasse de contaminar a mente dos seus alunos e a  Faculdade onde leciona e, sei lá, se dedicasse a algo mais condicente com a sua cultura quem sabe a acartar baldes de massa?  

 Maria João Varela


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Praxe - Tradição respeitável ou abuso de poder? (texto de participação no jornal da Faculdade "O claustro")

Sempre, desde que me conheço, questionei o que está instituído e pensava, na minha inocência, antes de entrar na faculdade, que o ensino superior seria  o meu habitat natural, o  local  ideal de debates de ideias entre alunos, pensamento crítico, questionamento das normas e regras em vigor; nada mais ilusório, porém, e apercebi-me disso logo no meu ano de entrada quando na página dedicada aos caloiros “ousei” sugerir uma praxe diferente onde se canalizasse a imensa energia presente para ações úteis para a sociedade – à semelhança daquilo que outras Faculdades  já fazem como ações de voluntariado com recolha de alimentos, por exemplo. Vi com estupefação que, a par de outras esferas da sociedade também na Faculdade as pessoas se refugiam em termos como tradição, regras e normas de uma forma que sempre repudiei e que tem a ver com a falta total de espírito critico. Direi que a forma como o administrador da página resolveu o assunto foi pura e simplesmente retirar o meu comentário - O meu  simples "porquê?" quando me disse não pôr os "seus" caloiros  a fazer isso ( recolha de alimentos) - sem se dignar a responder-me .  Não sou contra tradições, regras ou normas sem as quais a sociedade não teria como se organizar, mas sou contra uma posição  acrítica de quem não questiona, quem não ousa pensar a sociedade onde está inserido por forma a melhorar o que está  incorreto.
Acontece que tenho observado certas práticas que vão contra os valores que me são mais queridos e que, por uma triste infelicidade, vieram a ser discutidos em praça pública com a crescente exaltação de quem defende a praxe como se se tratasse do seu clube de futebol ou religião e com uma argumentação parca e sobejamente denegatória dos factos que todo o bom observador pode constatar quando observa muitas das ditas práticas praxísticas. Contrariamente ao que se possa pensar não sou contra todas as práticas de praxe, embora rejeite liminarmente o código que lhe subjaz  e que acredito, poucos dos que se lhes submetem conhecerão, e rejeito desde logo porque numa sociedade “dita” democrática, práticas, normas, regras – grandemente violentas -  ditadas por quem não é eleito democraticamente, que têm de ser cegamente seguidas sem direito a apelo, onde abundam castigos para os detratores das mesmas, é-me completamente abominável. Para além de me preocupar sobremaneira a aceitação de hierarquias arbitrárias onde quem mais manda é quem tem mais matrículas e não por mérito , em alguma área do saber , reconhecido publicamente... Poderia citar muitos exemplos para ilustrar o meu repúdio , mas escolhi este artigo do código de praxe:
Artigo 103º
As trupes ordinárias, à excepção das trupes de Fitados, poderão levar consigo um caloiro que servirá de “cão de fila” e às quais se aplicam os seguintes preceitos:
a) O caloiro não poderá dirigir-se a alguém mas só apontar;
b) Enquanto a trupe estiver a aplicar uma sanção, o caloiro ficará automaticamente fora dela, podendo ser, entretanto, apanhado por outra trupe;
c) Se a trupe não rapar nenhum “animal” o caloiro “cão de fila” será rapado antes desta se desfazer.
d) Para efeitos do disposto no artigo 94º o caloiro não conta como elemento.
Dizem-me que as pessoas, neste caso os novos alunos –  denominados caloiros ou “bestas” -  têm a liberdade de escolher se querem ou não ser praxados, mas para mim, quando muito são impelidas para um dilema e convenhamos, a não ser que a coragem seja a sua maior virtude, é quase impossível chegar a um lugar sem conhecer ninguém, muitas vezes longe da família pela primeira vez , com necessidade de ser acolhido, querido, passível de ser aceite, numa instituição com o peso brutal das tradições que com tanto orgulho nos dizem ser  centenárias, onde todos à sua volta dizem sim, erguer a trémula voz e dizer um não redundante; mais a mais quando nos fazem crer -  explicita ou implicitamente – que para podermos aceder a toda a vida académica, convívios, festas, teremos que passar primeiro pelo crivo dos “doutores”. Convenhamos, é preciso força hercúlea para se opor a isto, sendo que, logo de seguida, quando entrosado no meio, a pessoa passa a defender a causa que foi coagido a aceitar por não conhecer outra forma de integração. Penso que outras áreas de conhecimento até poderão aceitar o tal argumento da liberdade de escolha, já em psicologia, com os estudos sobre influência maioritária em psicologia social por exemplo, entre outros, será descabido defendê-lo. Assusta-me ainda a ideia de haver jovens com medo, medo de falar, medo de se queixar - Como a Drª Catarina Martins referiu no debate Prós e Contras - com medo de sair à rua e serem praxados, ou direi antes : humilhadas, gozadas, castigadas? 

 “Só  pode falar da praxe quem a vive por dentro” ; “  São brincadeiras e nós divertimo-nos” ; “ Na minha faculdade não é assim, não fazemos estas coisas”… Oiço estas e outras “argumentações” e quanto à primeira defendo precisamente o contrário, ou seja, só quando se está a uma distância significativa - dissociado do grupo -  se pode avaliar um fenómeno imparcialmente, além do mais só quem não cumpre as ditas normas fica a conhecer o peso do castigo, assim como só quem lutava pela liberdade de expressão, pela democracia ,sofria o castigo da PIDE… Quanto ao “argumento” da diversão nada tenho a opor, sou a favor da livre expressão e do direito à livre associação embora tenha sérias reservas e me cause estupefação adultos divertirem-se com linguagem, bastas vezes, imprópria, ofensiva para si próprio e para os outros, com discurso de cariz sexual e escatológico – próprio de idades mais precoces – adotando posições de submissão ou simulando atos sexuais… ad infinitum. Causa-me, ainda, espanto as autoridades tudo permitirem desde barulho pela noite dentro que põe em causa o descanso alheio, num completo desrespeito pela lei do ruído, além de me enojar vomitado por ruas e ruelas, vandalismo variado que observo sobretudo pela altura da queima das fitas quando saio pela manhã, antes de passarem os varredores – os mesmo que não dormiram e que limpam agora o esterco de quem de regras só parece obedecer às da praxe… Sei que muitos estudantes partilham a condenação destes atos, mas sei  por experiência própria que é difícil ser uma voz contrária àquilo que é seguido pela maioria, no máximo vão-nos "às unhas" no mínimo somos postos de parte; e se este mínimo assusta!
Quanto ao terceiro ponto, ainda bem que o próprio presidente da AAC, Ricardo Morgado não  pôs a Universidade de Coimbra de fora daquilo que são práticas correntes e transversais a toda a comunidade estudantil, com raríssimas exceções como tão bem ficou documentado no filme de Bruno Cabral.
Por tudo o que ficou dito atrás  sou por uma outra integração aos novos alunos, onde sejam inseridos através de práticas mais dignificantes da natureza humana, onde sejam ajudados pelos mais velhos a compreender os trâmites da nova vida que acabaram de abarcar com convívio de alto valor cultural como música, teatro, desporto, debates que desenvolvam o espírito crítico  – atividades presentes na AAC e tantas vezes quase desconhecidas. Cabe-nos a todos os que fazem parte da Universidade de Coimbra lutar por isso e até  promover mais debates para tentar perceber por que razão em pleno século XXI, num Portugal que se diz moderno este tipo de práticas - que lembram tempos idos -  tem tanta aderência por parte dos estudantes e tanta complacência por parte do resto da sociedade. 



Maria João Varela