Falimos. Esta sociedade está falida porque já não
existe a moeda de troca com que nos endrominaram, fazendo acreditar que
teríamos justiça e paz, onde não prevaleceria a luta de todos contra todos; só
teríamos de abdicar da nossa liberdade herdada à nascença e poderíamos ver desabrochar
todo o nosso potencial humano enquanto as injustiças criadas pela própria
natureza onde uns nascem mais preparados para se adaptarem do que outros seriam
amenizadas. Uma sociedade onde mães de família trabalham de sol a sol para dar
de comer aos filhos e mesmo assim têm de ir pedir às instituições de caridade,
onde senhoras de 90 anos vêm os filhos – com 50 e mais anos – regressar com os
netos e ajeitarem-se como podem num chão frio onde se improvisam uns colchões,
onde as crianças vão para a escola com fome comprometendo as suas capacidades
cognitivas e o futuro de um país; essa sociedade está falida.
Atiram-nos com números à cara. Números. Para essa
gente de gabinete as pessoas são números, como o eram para o regime nazi e para
todos os outros regimes cobardes que não têm coragem de encarar a dor cara a
cara. Razão tem o escritor António Lobo Antunes quando diz que “essa gente vem
de uma incubadora partidária e lá se mantém…” nunca saíram da incubadora e por
isso não conhecem a realidade e também não conhecem a História, esta de letra maiúscula
que nos conta que todos os regimes que negaram as evidências, fecharam os olhos
à realidade estavam já no seu começo do fim… Atiram-nos com os números:
desemprego a baixar. À custa de quê? Imigração e pessoas ocupadas duas horas
por dia? E pessoas a trabalhar abaixo do ordenado mínimo? Só não sei se
concordo com o escritor que num olhar poetizado nos diz serem os portugueses príncipes;
serão príncipes ou mártires em causa alheia?
Estamos falidos. Uma pequena minoria da sociedade
civil vai aguentando as estruturas de um império em queda, mas sendo uma queda
inevitável só estão a dar os cuidados paliativos ao moribundo, que tarda
entretanto em falecer e dar origem a uma sociedade mais ética. A ética que não
tem a casta que nos governa e que talvez só terá uma outra geração criada com
valores diferentes. De que nos valeu o Contrato Social em que abdicámos da
liberdade de nos defendermos como dita a natureza? Serviu-nos apenas para entregarmos
todo o nosso esforço em mãos caprichosas que não redistribui a riqueza? Então mais
vale trazermo-la de volta que ao menos correremos em prados verdejantes até
sermos mortos por um qualquer espécime maior ou mais forte do que nós, mas
sabemos que a vida é isso mesmo a luta do mais forte. Agora a injustiça
mascarada?
Numa coisa junto-me a Lobo Antunes: na injustiça
que está a ser feita, onde os espécimes da pior raça estão a empanturrar-se
enquanto veem os seus próximos enlameados e caídos pedindo uma esmola… estamos
mesmo falidos, só ainda não pedimos foi a insolvência…
Maria João Varela
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