domingo, 17 de junho de 2012

Crer para ver ou para continuar cego?


                          
O poder das crenças é conhecido e o seu valor é inestimável, ouso mesmo dizer que sem crenças o nosso mundo não poderia funcionar do modo como o conhecemos. Nunca os primeiros hominídeos teriam saído da selva para se aventurarem na savana, nunca os nossos antepassados, já homo sapiens tornados, teriam percorrido grandes distâncias, enfrentado enormes e eternas montanhas cobertas de brancos mantos, se não acreditassem existir algo para lá do que a sua vista poderia alcançar. Todas as grades conquistas humanas tiveram necessariamente de ser precedidas por uma grande dose de fé e um acreditar para além do concreto e palpável. Não foram os nossos navegadores exemplos dessa fé inabalável na existência de outras terras, outros povos? Alguém consegue imaginar partirem em frágeis caravelas enfrentando um mar tão sedutor quanto mortífero se não acreditassem num novo e revelador mundo para além do horizonte?   
A confusão em torno do que é a fé e para que serve está, a meu ver, no facto de se pensar que ou se é uma pessoa de fé, ou não, ou se acredita, ou se é como São Tomé – ver para crer – ou se acredita sempre ou nunca, ou somos céticos ou crédulos… Mas, há outras hipóteses que não o simples tudo ou nada. Há, acima de tudo, uma atitude em torno deste valor tão humano: serve-nos a fé como ponto de partida ou de chegada?
Muitas vezes tenho apreciado confrontos entre criacionistas e cientistas das mais variadas disciplinas e, frequentemente, quando os cientistas falam em fé e na sua perversão, logo saltam das suas cadeiras vitoriosos e convencidos os criacionistas dizendo que sem fé também a ciência não seria possível; pois eu acho que têm razão, mas será esta fé igual quanto ao tipo, ao grau e à utilidade que uns e outros lhe dão? Aqui é que as diferenças se fazem notar de forma flagrante: é que para os cientistas, a fé, a crença em algo que ainda não se pode provar é um ponto de partida, enquanto que para os criacionistas mais radicais é um ponto de chegada, com ponto final e tudo; uns utilizam-na para chegar mais longe, outros para ficarem no mesmo lugar; uns servem-se dela para pesquisarem e evoluírem, outros para perpetuarem crendices e superstições indefensáveis e incompatíveis com as descobertas do mundo moderno.
Umas dessas crenças, totalmente indefensáveis no mundo moderno é a existência de uma alma imortal, ou de uma ida para o paraíso depois da morte – já agora o que é a alma? E o paraíso? Muitos dos que acreditam nunca pensaram no que isso é, aliás, é bem típico de muitos crentes o facto de não pensarem nessas coisas, os não crentes pensam muito mais nelas…
A alma imortal, tem um passado muito antigo – o ser humano, que se saiba é o único animal que tem consciência da sua própria morte e, por isso , sempre tentou ultrapassar os seus medos com recurso a estratégias mais ou menos complicadas. Não recuando ao seu passado mais longínquo fico-me por Descartes que talvez seja o filósofo que mais influenciou a visão atual da existência duma alma imortal. Não me alongando no tema, Descartes acreditava haver em cada um dos seres humanos e também dos animais uma corpo físico que funciona como uma máquina, a res- extensa e, contrariamente a todos os outros seres existentes, nós, seres únicos e irrepetíveis, tínhamos também uma alma imortal, a res- cogitans, sede da nossa essência , daquilo que é único em cada um de nós; ora, esta visão está hoje completamente ultrapassada pelas novas conquistas da neurociência.
Pelo menos desde o século xıx com os trabalhos de Paul de Broca, em que foram identificadas as zonas cerebrais responsáveis pela fala articulada, a famosa área de Broca, que se acredita que todas as capacidades humanas estão dependentes da sanidade mental das áreas correspondentes no cérebro que ,como se sabe, é composto de células vivas, os neurónios, que formam em seguida circuitos e posteriormente  sistemas. Não há personalidade ou identidade separada do bom funcionamento dos sistemas cerebrais. Cientistas como António Damásio, por exemplo, constatam isso a cada dia, quando seguem doentes que em consequência de um tumor no cérebro, ou um AVC, ou ainda com a terrível doença de Alzheimer se tornam seres estranhos para a sua própria família, pessoas que, sendo antes da doença se manifestar afáveis, responsáveis, carinhosas, ponderadas, se tornam depois rudes, irresponsáveis, intratáveis e incapazes de tomar decisões ponderadas. Não há pensamento, emoção, consciência sem o incansável funcionamento das nossas células cerebrais cuja sintonia e interação com o nosso corpo faz de nós aquilo que somos. O nosso corpo, tantas vezes negligenciado na compreensão daquilo que somos, é também essencial, pois é ele que envia os sinais que servem de base de trabalho para o cérebro – a temperatura , o nível de açúcar no sangue, a regulação hídrica – são disso exemplo.
Os crentes de todos os quadrantes que, apesar das evidências, insistem que a alma imortal nada tem a ver com questões como a personalidade, identidade, emoções, aspirações, desejos, memória, etc. façam esta simples pergunta a si mesmos: não se incomodariam se, depois da morte os levar para a inconsciência eterna, continuassem a existir sem os vossos corpos, emoções, pensamentos, memórias, perceções?  Bom, se isso não os incomoda, a mim também não, aceito plenamente essa “alma imortal” totalmente independente do corpo e cérebro; isso nada mais é do que a continuidade eterna dos átomos individuais que nos compõem e que embora se desagregando continuam a existir, que se saiba, por toda a eternidade.


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