sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A-MOR - TE!


 Deixa-me ficar..
Não me tentes com os teus encantos
 onde o mal se esconde,
 onde a dor está disfarçada.

Deixa-me ficar…
 nos meus dias serenos e suaves
 onde as ondas gigantescas dos teus não se fazem sentir;
 deixa-me navegar nas águas plácidas sem as tormentas
nem as ondas revoltosas que me chegam
em torrentes caprichosas do teu mundo.

 Caminho, silenciosa e firmemente para o cadafalso,
sem querer desistir, sem poder parar
 numa atração inexorável
 pelo prazer mórbido de te amar.

Porque chegaste com fragâncias de desejo e visões do paraíso?
Manto diáfano de promessas que nunca serão cumpridas,
 um amor sempre adiado, exigente,
 oh, forças porque me abandonam?
Deixai seguir o caminho, a quem faz perder o meu…

Porque me tiras o chão?
Tapete de flores onde deslizo
nos dias cálidos de alegria inocente;
porque me roubas um futuro inexistente?

Porque me condenas à morte em vida
com o peso da tua ausência,
porque me seduziste? Me tentas?
Mil demónios me invadem os dias
em que te deixo entrar.

Porque te olhei, vendo-te?
Passarias sem te ver,
não fora o encanto desses olhos
que olharam os meus e na armadilha por ti tecida se enredaram.
Porque ficaste sem me querer?
Perpetuaste um sofrimento sem sentido, sem finalidade;

 Oh, privilégio dos amados que não amam!
Amor assim obtido é roubo
merecedor de pena capital;
 trouxeste a morte em doses sem serem letais,
 mas  envenenam em parcelas,
corroem ,aos poucos, alimentando um desejo animal.

Oh, amarras de férreas correntes,
grilhetas impossíveis de arrancar!
Que prendem sem serem vistas,
que escravizam e me tornam marioneta sem vontade,
sem liberdade para as tirar…

Amor cruel! Como ousas chamar-te amor?
Como ouso dizer: «amo-te»! Vou-te dizer «A-mor-te! »
para ser mais verdadeira.

O amor enaltece, o teu rebaixa,
o amor faz sorrir, o teu faz-me chorar;
 o amor liberta, o teu castra
e prende-me em masmorras bolorentas
de onde não posso sair;
o amor dá vontade de viver;

o teu, dá-me vontade de morrer… 


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Aqui e ali...


Aqui e ali, quebrando a monotonia da paisagem, esparsas nuvens de um cinza desbotado afastavam-se em leves baforadas que a terra parecia exalar. Numa longa e profunda inspiração contemplei a paisagem de beleza agreste querendo guardar o momento em toda a sua complexidade de detalhes; quis gravar cada tom de verde dos formosos pinheiros, cada tonalidade do amarelo das elegantes giestas,  o tilintar longínquo do sinete nos pescoços longos e elegantes das cabras que saltitavam pelos escarpados rochedos.
Que encanto poderia existir nestes montes inférteis e quietos,  desprovidos de tudo aquilo a que  estava habituada, das  luzes cintilando perpetuamente e dos movimentos frenéticos onde não há espaço para reflexões profundas, em que tudo é efémero e de uma magia desnorteante?  Que sensação de esvaziamento profundo  e simultaneamente repleto de significado era aquele? Conheceria finalmente o sentimento de felicidade? Ali? Sem mais nem menos? Sem motivo algum?
Resolvi sentar-me e enterrar os pés descalços na terra maltratada de invernos rigorosos, e assim fiquei pelo que pareceu uma eternidade sem nada fazer, a não ser, apreciar o facto de estar viva e preenchida de todos os bons sentimentos que emergem quando menos os esperamos. Apercebi-me naquele instante que tudo aquilo por que lutava parecia insignificante diante da paisagem inebriante que se estendia diante de mim e prometi que me daria, dali por diante, mais momentos destes, sem princípio nem fim, em cujos intervalos a vida apenas se desdobra em acontecimentos sem significado aparente. Sentiria o aflorar de uma leve hesitação? Porquê este sentimento agora como se pertencesse àquele lugar e nada fosse mais importante no mundo do que ficar embevecida a contemplá-lo? 
O som, ao longe, do sino da pequena igreja tirou-me do devaneio e uma ligeira brisa fez-me voar os cabelos trazendo o aroma do campo, sempre puro, que rejuvenescia a alma. Faria bem em partir? Levantei-me e absorvi tudo o que podia da bucólica paisagem. É na partida quando queremos tudo abarcar pois já nos falta o que ainda temos;  temos sem ter, já não sentimos nosso o que está diante de nós e mesmo a olhar, tocar, sentir, mesmo assim não é nosso. Até o doce nos parece mais doce e a brisa mais fresca, o que era feio agora é  bonito e o aborrecido ganha novos encantos descobertos à última  hora enquanto  perguntamos porque não olhámos com mais atenção enquanto havia tempo… Agora já não há. Resta a nostalgia e a leve esperança de regressarmos um dia e vivermos o que nos faltou viver agora.
Porque nunca nos é dado saber que aconteceria se fôssemos por um lugar diferente daquele que acabamos por seguir? 






quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O Hulk em mim

Há assuntos na vida que nos moldam o caráter sem que nos apercebamos disso a não ser longos anos mais tarde. Passei a acreditar sem reservas na máxima «quanto mais a gente se baixa mais o cu se vê» tinha por volta dos 11 anos de idade e uma história já longa de bullying e rejeição que levou muitos anos a exorcizar.
Naquela época, a casa pia era um misto de colégio interno, externo e um meio termo entre os dois e , embora eu estivesse no meio, nem era externa nem interna, tinha dos dois lados inimigos figadais que se revelaram logo após o primeiro dia em que fui uma espécie de atração de circo porque já ia a meio o período das aulas e a professora fez questão de que toda a turma me desse as boas vindas. A partir daí as boas vindas acabaram e começou o que para mim foram longos anos de tortura.
A pobreza extrema e a falta de condições sanitárias condignas fazia com que os piolhos tivessem sido a minha companhia mais fiel de infância e afastassem de mim as amiguinhas para brincar. A culpa era toda de umas empenhadas funcionárias que chegavam qual exterminadoras implacáveis rompendo a meio das aulas com a sentença: «Vamos lá vasculhar essas cabeças e ver quem tem piolhos»; eu começava logo a tremer pois já sabia que os meus hóspedes indesejáveis não me largavam os cabelos e que isso era o suficiente para ser posta de lado como um pária o resto de semestre. E assim era, mal davam conta dos fiéis habitantes, estas bestas sem empatia saíam vitoriosas com a sensação do dever cumprido , e a mim restava-me apenas a companhia de outra desgraçada como eu que mais ninguém queria, pelo que juntávamos as desgraças sendo amigas uma da outra num afinco de fazer inveja aos mais populares da escola.
A minha mãe que nunca foi de meias medidas, assim que era avisada da minha condição de piolhosa tomava logo uma de duas medidas drásticas: ou me rapava o cabelo pondo um lencinho no lugar dos caracóis ou o ensopava em petróleo, insensível aos meus apelos e queixumes e inconsciente para o perigo de tal medida. Tornava-me assim na   cúmplice involuntária de tais bestiolas onde um sentimento dúbio nos unia: por um lado queria-os mortos por outro tentava salvar-lhes a vida aplacando-me os ardores do petróleo e do rabear aflito deles enfiando a cabeça em água fria.
Quando a primeira medida era a opção, os meus perseguidores habituais tinham com o  que se rir  a bandeiras despregadas ao verem-me careca depois de me arrancarem o lenço. Do bando, destacava-se o líder que só pelo nome dá para perceber não ser boa rês: chamavam-lhe o Fatela, não sei se se chamava mesmo assim ou se seria também ele vitima de alguma alcunha que colou. Sei apenas que foi um dos meus maiores torturadores de infância que apenas recuava perante a sanha justiceira da minha irmã quatro anos mais velha. Um dia, cansada de tanto intervir, deixou-me entregue à sorte com a resolução: « A partir de hoje tens de aprender a defender-te!»
Ficava muitas vezes sem ir ao recreio, espreitando o rufião que se pavoneava com a comandita atrelada, para fugir a sarilhos, mas quanto mais me escondia mais ele me encontrava fazendo uma dupla inesquecível qual Tom & Jerry  com a história ao contrário: ele encontrava-me sempre saindo vitorioso com alguma malvadeza que se lembrasse de me fazer.
Não encontro explicação para o que aconteceu naquele dia, que tudo levava a crer seria mais um dia típico de bullying : empurrões, achincalhamento público, roubo do lanche, apalpões; só sei que levava eu os livros na mão, já andava no sexto ano e tinha os meus 11 anos, quando com ar de valentão me empurrou ao chão espalhando os livros pelo corredor e as risadas pelas caras colegiais. Acordou o Hulk adormecido em mim, feito de um misto de ódio acumulado durante anos com uma necessidade animal de justiça: mandei-o para a enfermaria com os tomates esmagados e a alma vingada.
Desfeita a dupla, ele nunca mais me procurou nem eu nunca mais o evitei, tinha-me tornado outra pessoa: admirada, elogiada e temida pelos inimigos de outrora e que agora me carregavam nos braços para me fazerem ver que tinham esperado por este desfecho toda a sua curta vida escolar. Acabavam, assim, anos de tortura física e psicológica, um jogo em que os dois lados cumprem um papel igualmente importante, um a  de vítima outro a de carrasco, mas antes que me acusem de pôr culpas nos desgraçados que levam todos os dias na escola confesso que o desenlace final muito se ficou a dever ao meu crescimento precoce numa altura em que o dele deveria estar estagnado. Que cada um se meta com os do seu tamanho, cobardolas infames!


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Histórias de uma janela

Por detrás da pequena janela orlada a verde, um verde de tinta rasca, mas com um encanto assombroso, assomava uma pequena cabeça de fios prateados muito atenta ao que se passava em baixo. Sempre que  por lá passava, lá estava a cabeça como se tivesse existência própria, sem mais nada que a suportasse : sem corpo, sem membros, só uma cabeça. Nunca conheci o resto da dona, só uns olhinhos curiosos como se não houvesse no mundo nada mais importante do que observar as pessoas que passavam, os carros, esses monstros de metal que era suposto facilitarem-nos a vida, um gato preguiçando no umbral da escola infantil, onde bandos de crianças chegavam, enchendo de alegria a rua…
Uma velha e encardida cortina de renda grosseira de má qualidade preenchia o buraco negro de uma velha casa à antiga onde se podia adivinhar o cheiro a solidão e naftalina, numa combinação por demais usual, roçando uma lei física qualquer -  talvez a própria naftalina tenha na sua estrutura química algum componente que a par de afastar a traça, ajude também a afastar a outra praga maior, mas adiante. Um velho e escuro buraco, talvez o vislumbre de um vazio na alma, apenas preenchido por aquele tempo que passava à janela.
Não me lembro já a primeira vez que reparei nela, talvez num daqueles poucos momentos em que, embrenhados no nosso próprio eu levantamos os olhos do chão para contemplar outras paisagens, apenas me lembro de que achei uma perda de tempo aquele passatempo, um tanto ou quanto antiquado, de observar quem passa. Ignorância a minha, poderá haver alguma coisa mais proveitosa do que observar, sem ser observado, os nossos semelhantes?  
Comecei sem querer a ver pelos seus olhos:  o que pensaria de mim, ao ver-me olhar de esguelha em vez de diretamente, sem subterfúgios, o meu reflexo no espelho para ajeitar a indumentária; um par de turistas de mochila às costas, faltando a uma em curvas o que sobrava na outra completando-se numa harmonia perfeita; uns sapatos de salto alto gingando com a dona em cima, perigosamente, equilibrada dando ao andar uma vaidade sem motivo e fazendo balancear as bolas vermelhas da blusa; uma negra de cores garridas vestida criando uma simetria de cores perfeita, apenas interrompida pelo leve coxear… sempre sem querer apanhei-lhe o mesmo vício.
Pelo que foi uma tristeza quando a cabeça desapareceu no buraco negro fazendo morrer a janela provando o sucedido umas tábuas brancas e carrancudas, a fazer as vezes da lápide, fechando hermeticamente lá dentro todas as histórias que a cabeça nunca se deu ao trabalho de contar ao mundo.

A única lembrança de que algum dia lá habitou alguém foi a cortina, velha testemunha das histórias observadas, ligeiramente afastada para um lado, como se uma mão fantasmagórica ainda a segurasse para que uns olhinhos curiosos observassem o mundo de uma pequena abertura, mas com enorme alcance…













(imagem do artista Melro)

Ode ao sol



E se o sol fosse um menino?
Brincasse de esconde-esconde
 a comer algodão doce por detrás de brancas nuvens
 traindo o esconderijo…

E se fosse brincalhão
 batesse às persianas,
entrando sem avisar,
sem esperar ser convidado obrigando ao despertar;

Se brincasse com as ondas,
 rodopiasse à superfície como enguias reluzentes,
 mergulhasse e espalhasse o seu encanto em risadas estridentes…

 Se acalentasse o sonho, de um eterno alvorecer,
se nascesse nas janelas
se morresse nas vielas
se se deixasse perder…

Se fugisse, se aparecesse quando deseja alegrar,
se desse a vida, a esperança, brando ou forte alumiar,
se se fosse para nunca mais voltar?

Se a luz da sua presença fosse uma porta aberta
se não sucedesse à noite condenando-nos à morte certa?

 Lindo menino de ouro,
requebro-me ao te avistar,
vai-te, mas vem depressa
 sem ti  a solidão é mais densa,
mais intensa qualquer dor.

domingo, 1 de setembro de 2013

As sopas da avó Ermelinda


Era uma mulher de aspeto, à primeira vista, rude e desleixado; dessas que se esquecem de cuidar de si para cuidar dos outros. As rugas já faziam pregas na pele torrada pelo sol impiedoso, embora não devesse na altura ter mais de cinquenta anos, um andar atarefado e enxuto como que a desincentivar conversa fiada. A sua figura, mediana e desenvolta era o pilar de uma família de cinco filhos verdadeiros mais uns quantos emprestados.
Durante muitos e muitos anos não me lembrei dela, mas agora que a passagem dos anos me levam a valorizar o repositório das memórias de infância, ela surge uma e outra vez sedimentando uma lembrança cálida e amorosa que jazia perdida, sabe Deus onde, pelos labirínticos caminhos da mente. Lembro-me da casa feita de tábuas de madeira com um pequeno acrescento onde existia um velho e sujo fogão, permanentemente, ou a mim me parecia, em funcionamento; era lá que se cozinhavam as sopas que alimentavam as muitas bocas que sempre pairavam por ali. Eram sobretudo crianças como eu e os meus irmãos que tantas e tantas vezes lá matávamos a fome : de comida e de carinhos… coisas que nunca faltavam. Ganha, aqui, contornos reais a fábula da multiplicação dos pães, sendo que no caso em apreço teria mais a ver com sopas: de legumes, de feijão, de café…
 Que saudades das sopas de café acabado de fazer numa velha e grande cafeteira amolgada onde ela deitava colheradas do pó, comprado  a granel, em cartuxos feitos de folhas de jornal. Gostava de vê-la mexendo a cafeteira, calcando as borras que teimavam em subir abanando os quadris, enquanto o aroma se espalhava pelo pequeno alpendre e eu esperava, olhos postos nela, pacientemente, por mais uma refeição. A avó Ermelinda, acabada de confecionar a frugal refeição, entrava na divisão principal espantando da cama os filhos que por ocultos motivos chamávamos irmãos numa salgalhada de laços familiares incompreensíveis; uns adolescentes tardios, cujo cheiro a chulé e a hormonas desreguladas impregnava o ambiente sendo mitigado, apenas, pelo aroma do café fervente servido em malgas onde boiavam pedaços de pão antigo.
Na ausência da verdadeira, esta avó emprestada fazia as vezes da outra  e ajudou a criar-nos sem fazer distinção entre nós e os próprios filhos; parece-me até que muitas vezes lhes tirou da boca alguns mimos porque já estavam quase criados – uns marmanjões, como lhes chamava – para me dar a mim e aos meus irmãos que éramos uns franganotes. Nestes tempos difíceis, faltava tudo menos a imaginação; recurso precioso para poder continuar a viver.

Aqui aprendi o valor das coisas simples que rareavam: o pão fresco e a manteiga, a carne e o peixe e lembro-me até que um dos meus sonhos de menina era ter um tanque de azeite para lá poder molhar o pão tal era a falta. Mas a coisa mais importante que aprendi foi a importância da generosidade e solidariedade que abundavam embora faltasse tudo o resto. A importância de fazer o bem onde ele for preciso, sem restrições, num entendimento profundo, quase carnal, que somos todos igualmente importantes, todos farinha do mesmo saco, trazendo dentro a urgência da vida. Sem esta avó eu não teria sobrevivido.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Poeta da existência 2

Quero ter olhos de poeta ,
ver para além da existência; 
olhos de turista: curiosos e atentos
que escrutinam o mundo em busca da essência.
De que vale viajar
sem ser poeta nem ter visão de turista?
Quero perscrutar para além do espectro de luz visível
o que só a alma nobre avista.
Quero a sensibilidade do artista
que sente o que é inefável nos seres:
a hesitação na asa da águia no seu voo picado;
o leve deslizar da dança de um cisne num lago gelado;
a tristeza por trás do sorriso de um velho solitário;
a leveza do vento quando lhe obstruo a travessia.
Quero ouvir o marulhar das ondas
no seu monólogo perpétuo,
entender as vozes que só ele deixa ouvir:
versos cantados de um amor atraiçoado e febril,
carregado de falsas promessas;
ou quem sabe o desespero de quem no mar se abandonou,
e no grito da sereia se alegrou.
Quero, sofregamente, sorver cada gota de sol na alvorada
apreciar o momento exato em que se abandona à volúpia e se banha no rio,
enchendo de ouro as suas águas que me salpicam a pele
quero a chuva que me castiga , o cheiro a terra molhada.
Quero viver no fio da navalha,
qual inseto que só vive uma manhã
cair num abismo sem retorno,
cheirar o aroma fresco da hortelã.
Quero sentir a vida palpitar-me nas entranhas
e não parar para pensar se estou certa ou errada, se posso, se devo.
Quero viajar na escuridão da existência,

 mergulhar na angustiante passagem do tempo, 
os meus terrores escondidos conhecer
as palavras que não tive coragem de dizer,
transcender o ser tenebroso que ora me habita, ora se vai sem avisar;
amar sem vergonha nem medo de acabar…


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A dama de lilás

Dir-se-ia saída de algum baú da história, talvez inglesa mais condizente com sua altivez. Tinha um “je ne sais quoi”, uma aura emanando de uma mistura de naftalina e alfazema que impelia a que se a olhasse. Vi que não era a única que reparava nela pois embora aparentasse ser já septuagenária chamava a atenção pelo que irradiava; como se tivesse a força da juventude aprisionada dentro e o aspeto exterior contrariasse a sua  firmeza de caráter que se revelava no andar.
Exceto a rede preta que lhe apanhava os cabelos, ralos e raiados de prata, sem estarem pintados, todo o resto da sua indumentária era lilás; de todas as tonalidades possíveis. Os sapatos, esculpidos por mãos hábeis e experientes de algum sapateiro à antiga cuja perfeição se observa em cada ponto dado, apresentavam, de todo o conjunto, o lilás mais escuro do espectro: tinham uma mimosa flor que ornamentava o peito do pé, um pouco deformado pela idade, mas que sustentavam uma figura digna de nota, digna de ser imortalizada.
O corpo denotava já uma ligeira corcunda que o tailleur de bom corte permitia disfarçar, também ele lilás, não tão escuro como os sapatos, nem tão claro como a mala que sendo grande se encaixava no conjunto criando uma harmonia inesperada. Da extremidade das mangas sobressaiam umas mãos finas de veias salientes e uma pele branca sem marcas , contrastando com um pescoço, este sim, traindo a idade sem deixar que se aproximasse nenhum bisturi das artes modernas; plásticas com certeza.
 Tinha um sorriso gentil, embora firme, e uns olhos vivos de uma lucidez encantadora que hipnotizaram quem a atendia na repartição pública pois reparei na deferência com que foi, subtilmente, passada à frente de quem já lá se encontrava e, também eu ,enfeitiçada que estava a observar a figura, não me incomodei com tal desplante que noutra altura qualquer me faria reclamar com indignação: ninguém se pareceu incomodar, aliás.
Ali fiquei eu, no meu anonimato, sendo transportada para um qualquer romance do século XIX que uma pincelada de contemporaneidade tornava inaudito, sendo reduzida à inexistência por quem me lembrou de imortalizar sem pedir consentimento. Mas é que é digno de registo a observação de coisas que o apetite voraz do tempo não consegue devorar. Mulheres! Não temeis, que o tempo pode consumir o corpo, mas não consome o espírito sem autorização.  

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Mostra-me o estendal, dir-te-ei quem és.

De entre todas as técnicas que possibilitam que se conheça alguém, uma das mais promissoras é a de cuscar os estendais alheios. A observação minuciosa destes pode ser revelador da personalidade de cada um dos habitantes, numa dada morada, e isto de uma só assentada. Acredito que Freud teria tido muito a ganhar se a tivesse utilizado pois poderia, com toda a certeza, ter poupado horas preciosas do seu tempo em que, refastelado no sofá, tomava apontamentos da verborreia que assomava à cabeça das donzelas da alta classe vienense; pena que já não esteja entre nós pois acredito que de imediato levantaria o nobre cagueiro e correria as vilas e cidades em busca de roupa pendurada!
Com facilidade se percebe as pessoas dadas a dissimular traços não de personalidade, mas de carne em excesso nas coxas, rabo e ancas que isto de viver no século XXI não é propício a ser mulher, inclinadas que estamos a  acumular os excessos de bens alimentícios nas zonas supra citadas e, como está longe a Mauritânia!  Onde gordura ainda é formusura nem que seja  conseguida pela inserção forçada pelas goelas abaixo de cuscuz e leite de camelo  – e não é para a malandrice que camelo serve também para designar a fêmea. Também não estamos nos séculos XVII ou XVIII onde esta inclinação tão feminina de guardar nutrientes no sítio errado era motivo de alegria e dava acesso direto a ser estrela na tela de algum Renoir. Não. O nosso século é cruel por isso é até compreensivo que se desenvolva uma personalidade dissimuladora de curvas, tendência esta facilmente percebida pelas cintas completas que se veem penduradas e que esmagam as carnes desde os joelhos até às costelas, na esperança talvez que recebam os seios as carnes que sobraram.
Muito fácil também é detetar aspirantes a cientistas e, consequentemente, aéreos por natureza pelas meias de pares trocados que se encontram a balançar retorcidas no estendal, tendência irritante que se lhes perdoa, se forem homens, pois já Einstein se enganava nesse assunto, sendo mulher, como as collants vêm juntas não dando azo a este tipo de distração serão os conjuntos de lingerie que darão a um olho treinado pela experiência essa informação: repare-se se o tamanho do soutien coincide com as cuecas, se não, podemos atestar a ocorrência de uma personalidade tendencialmente distraída; ou será simplesmente uma mulher mal jeitosa cujas mamas saem ao pai e o rabo a alguma familiar de proveniência latino-africana cujo ramo antigo e desconhecido lhe deveria negar o direito de nos assombrar a genética?
E os obsessivo-compulsivos? Esses são os mais fáceis de detetar  pois a roupa, imaculadamente estendida, sem rugas nem traços que faça suspeitar que ainda se encontram a secar, está pendurada e toda enfileirada, agrupada por cores e tamanhos, bem segura por molas que a agarram em locais específicos e, milimetricamente, escolhidos fazendo corar de inveja as donas de casa à antiga, cientes da impossibilidade de competir com tal zelo e perfeição.

 E quanto aos mais desmazelados ou em vernáculo puro português os porcos? Bom, também é só olhar o branco dos lençóis estendidos: se for pouco menos que branco cal pode-se dar um atestado de imundície, convêm é primeiro certificarmo-nos que não são só as vidraças das nossas janelas as culpadas pela impressão causada, sujas que estão pela nossa personalidade cusca que está para aqui a perder o tempo, precioso e necessário para as limpar, a reparar nos estendais alheios.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Ator principal

Somos atores sem papel principal cuja cortina fechará sem que seja dado o toque que anuncia o final do último ato, sem que tenhamos a oportunidade de agradecer os aplausos a um público, um tanto ou quanto  delirante, a quem ajudámos a sustentar os dias…
Que falta de pudor! Como nos pode ser negado esse legítimo direito ? Como podemos desconhecer esse importante dado sobre nós? Todos vão saber, todos menos nós, pobres ignorantes, embriagados que estamos ainda pelas luzes do teatro da vida. Continuaremos a sorrir, como se nada fosse, a representar um papel mais ou menos fidedigno como se hoje fosse, eternamente, o prelúdio do amanhã, como se o sol lá estivesse para  sempre e nos cumprimentasse pelas frestas entreabertas das persianas, trazendo toda a existência em partículas de luz…
 Porque temos de compartilhar esse momento em que voltaremos à essência primordial? Sem qualquer outro adereço senão uma data desconhecida que se segue ao terrível traço que embora nada mais seja que um insignificante sinal de escrita separa, aqui, dois vácuos eternos preenchidos, somente, por uma centelha da nossa existência; grande segredo nos ficará para sempre vedado…
Continuaremos a peça, escrita para nós por mãos feiticeiras e imaginárias, com o mesmo fulgor de um principiante que aguarda, a medo, a ascensão, o dia em que se tornará o protagonista do enredo. Representaremos o nosso papel durante um pestanejar do universo, um bater de asas diáfanas, um relampejo do cosmos, esquecidos da finitude da trama que, apesar de tudo, prosseguirá sem nós. Não há que esperar! A peça não tem hora de acabar e esse guião não contempla a vontade do ator nem os seus esforços de representação.
Deturpemos a peça, agradeçamos ao público sem esta ter terminado, mas sobretudo sejamos nós o protagonista da história da qual reescrevemos o guião para que o elenco, embora siga em frente sem nós, se recorde da história impar que partilhámos e em que cada um era a estrela da sua própria peça.