sábado, 4 de agosto de 2012

O pesadelo americano



O  tão idolatrado sonho americano revelou-se afinal um pesadelo e cada vez mais pessoas acordam aliviadas relatando quão assustador ele é e quanto prejudicou as suas vidas. A obrigatoriedade do modelo padrão da família perfeita, com carro, casa, dois filhos – de preferência um rapaz e uma rapariga – e um animal de estimação, além de uma conta recheada, férias num qualquer paraíso balnear tem levado a uma frustração crescente na sociedade ocidental e tem-se revelado fonte de falsas expectativas. A promessa da felicidade conquistada a cada novo objeto adquirido é falsa e só o conhecimento profundo do modo de funcionamento do nosso cérebro pode, finalmente, acordar os seres humanos para o embuste de que têm sido vítimas e carrascos ao mesmo tempo. Vitimas porque se sentem na obrigação de ter o mesmo que o vizinho sem que isso lhes dê, por vezes, a mínima satisfação e carrascos porque também cada um de nós tem a tendência de olhar de lado quem se afaste e rejeite os padrões normais do que consideramos ser desejável.
Todos os estudos efetuados apontam na mesma direção: apesar dos inúmeros avanços tecnológicos,  educacionais, de saúde, liberdade, etc. a civilização ocidental não está mais feliz; bem pelo contrário, aumenta o stress, as doenças mentais proliferam, o mal estar  cresce e a causa de tanta infelicidade é desconhecida, é um inimigo não identificado, omnipresente e, além do mais injustificável. Já todos devemos ter ouvido a frase: “ não sei que se passa comigo, tenho tudo para ser feliz  e vivo insatisfeito (a)”.   Esta é a realidade nos países mais desenvolvidos que apostaram tudo em mudar  «o mundo lá fora» e que se esqueceram da parte mais importante, ou seja, o mundo interior. É que por mais objetos que se possua, se não se possuir o domínio da nossa vida interior, da nossa mente, ela pode fazer descambar todas as nossas pretensões de sermos felizes e realizados e tiraniza-nos  enredando-nos nas suas malhas de neurónios tecidas,  deixando de poder controlar seja o que for na nossa vida passando a simples espectadores do drama em que ela se pode tornar.
O conhecimento de como o nosso cérebro funciona é a ferramenta mais eficaz para sermos os mestres da nossa vida em vez de impotentes espectadores.  Hoje vou enfatizar  o papel do comummente chamado sistema de desejo, mas que o autor do livro: “ A fórmula da felicidade”, Stefan Klein denomina, a meu ver apropriadamente, o sistema de expectativa.  Neste sistema existe uma molécula essencial para a nossa vida e para a sua qualidade, mas que se pode revelar a fonte dos nossos maiores problemas se sair do nosso controle. O que alimenta este sistema – dopaminérgico -  e o mantém a funcionar é a novidade, o desejo por coisas novas e apetecíveis , mas também vícios vários como o abuso de nicotina, álcool, jogo, sexo, e por aí vai. A dopamina funciona a três níveis diferentes, ela é a responsável por nos despertar para o desejo que tanto pode ser uma boa refeição como o vestido da moda ou também aquela festa tão badalada, não importa o objetivo, ele tanto pode ser útil para a nossa sobrevivência e bem- estar como completamente fútil e até prejudicial o que acontece é que logo que esteja em marcha a libertação desta poderosa substância é muito difícil barrar-lhe o caminho pois ela é também responsável pela aprendizagem – daí aprendermos melhor quando há algum desejo e prazer com o que se aprende – e ainda pelo movimento do corpo em direção ao objeto pretendido.
O enorme poder  que esta tão mágica quanto trágica molécula possui podemos observá-lo a partir das pesquisas do neurocientista canadiano James Olds  que se tornaram famosas  em 1954 a partir do seu estudo em ratinhos. A experiência consistia em introduzir um finíssimo eléctrodo no hipotálamo dos mesmos dando-lhes depois a oportunidade de controlar  através de um conector  este local nas profundezas  do cérebro  responsável pela libertação de dopamina. O que aconteceu surpreendeu sobremaneira os investigadores: os malogrados ratinhos deixaram simplesmente de fazer tudo aquilo para que estão programados e  que é responsável pela sua sobrevivência como seja, comer, beber, dormir e até sexo para pura e simplesmente acionarem uma e outra vez a libertação da molécula do prazer através do conector. Tudo o resto deixou de fazer sentido tendo o neurocientista que lhes salvar a vida desinstalando o comando.
O que nos pode ensinar o conhecimento deste sistema e como está ele relacionado com as falsas expectativas que a obtenção desenfreada de objetos levanta?  Uma das respostas podemos encontra-la na experiência dos ratinhos de James Olds, no fundo, os objetivos servem mais como meio do que como um fim em si mesmo que é como a maioria de nós os encara; daí a frustração que surge repetidamente quando se atinge um objetivo e nos deparamos com o vazio então existente, perguntamo-nos então se é só isto, agora que temos o carro ou a casa ou o vestido ou… a frustração é ainda maior porque a maior parte das vezes todos estes objetos são comprados sem termos os recursos necessários, sobrando-nos uma dívida e a  progressiva habituação ao objeto outrora novidade e que agora se revela em toda a sua  insignificância. É, porque a psicoadaptação é um fenómeno que produz insatisfação ou pelo menos uma sensação neutra a partir do momento em que nos habituamos a um dado objeto ou situação, tendo que procurar logo outro que seja novidade e que nos mantenha interessados, motivados, ativos. Que podemos fazer então?  Abdicar de toda a alegria que esta molécula nos proporciona e resignarmo-nos a uma vida cinzenta e desinteressante?
Claro que esta não pode ser a solução, o ideal será termos objetivos que são encarados tal qual são, um meio de nos mantermos interessados e motivados, plenos de energia, mas que ao mesmo tempo nos permitam encará-los sem ilusões: não é por comprarmos um palacete, um carro topo de gama ou roupa de marca caríssima que seremos mais felizes, os objetivos menores servem exatamente os mesmo propósitos e há também os que são mais úteis a longo prazo e que não nos aprisionam tanto em vidas de que não gostamos mas que temos  de suportar pois já nos deixámos enredar demasiado nas pegajosas e sedutoras teias do consumismo desenfreado.



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